quarta-feira, 30 de junho de 2021

 


Deixe-me aqui, doutor, na tarde morna,

presa ao gesto atordoado dos meus dedos

e ao som do abraço repetido.

 

Devagar o dia é mais nítido.

Ontem foi primavera.

Hoje, doutor, deixe-me assim

nesta varanda sem fôlego,

a segurar o olhar que então perdi.


Maria da Fonte

sexta-feira, 18 de junho de 2021


 

Se eu não couber nos teus olhos,

poderá não ser urgente.

 

Há tantos gatos de rua,

de olhos rasgados pelo vento,

a ronronar  como barcos,

e um mar à minha frente.

 

Maria da Fonte

quinta-feira, 1 de abril de 2021

 


Ainda assim, alinhas os pássaros

por trás do destino.

Emendas o friso, pontilhas as asas

em curtos prefácios,

soletras o fôlego discreto dos ninhos.

 

Ainda assim, evocas as ondas

sem saber ao certo a leveza dos traços.

Hidratas as rugas, retocas as rotas

e vestes o rosto, molhado,

 de barcos.

 

 Ainda assim, crias pontos de fuga,

ajustas as sombras

à escala tonal.

 

Tivesses tu tempo,

combinavas as cores

e davas à tela um toque final.

 


Maria da Fonte

terça-feira, 23 de março de 2021

 


Nos intervalos do vento,

pressiona mais a mão.

 

Move o lápis devagar por entre pontos e linhas,

numa simetria básica,

a sugerir rotação.

 

Assim de braços abertos,

fica o homem e o subalterno.

 

O esboço a deslizar

pela rotina do traço,

 

numa espécie de contraste

entre o céu e o inferno.



  Maria da Fonte

Homem Vitruviano

sábado, 27 de fevereiro de 2021

 


Com as palavras que me deste

fiz um rascunho.

Guardei um abraço por instinto.

Depois, deixei cair as mãos,

atravessei os dias,

envelheci por aí o pensamento.

 

Agora, que o silêncio me alaga os dedos

 e os  braços estão sem margens,

podia passar tudo a limpo.


Maria da Fonte

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

 


Difícil

é guardar-te na parede

sem o cheiro sequer do teu cansaço.

E os meus dedos cravados na moldura,

imaginar-te partir sem um abraço.

 

Difícil

é colar o meu ouvido ao teu medo

e fingir que, distraída, não ouvi.

Passar os olhos de pavor pela parede

e sentir que esse pavor vinha de ti.

 

Difícil

 é deixar cair o choro

no silêncio da parede que o colheu.

Encostar o teu retrato ao meu peito

e pensar que o meu choro era o teu.

 

 Maria da Fonte