sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

 



E os poetas,

que se consomem

com metáforas alinhavadas

numa colher de sopa,

querem-nos convencer

de que um punhado de poemas no bolso

deixa a morte sem poder.

 

Dizem, em manifestos,

que a poesia salva cidades,

que há sempre a possibilidade

de trocar um pão por uma flor.

 

E meio pão e um livro,

diz o poeta,

não deixam ninguém

morrer.

Maria da Fonte

domingo, 11 de janeiro de 2026

                                                                     



                                                                                                           Mulher,

assim calibrada,

com bloco de notas,

tambor e botões,

 

assim magnética,

de motor giratório

e custo reduzido,

 

assim ajustada,

de corrente contínua

e grandes precisões,

 

és a voz sem a vez

e um lanço de escadas,

para duas profissões.

 

Maria da Fonte

Imagem retirada da Internet 



terça-feira, 23 de dezembro de 2025

 



Havia ainda um último fósforo

para acender as palavras

e abrir uma porta para o mundo.

 

Mas as leis sabem a pólvora,

as metáforas

explodem nas mãos

e os homens lançam por terra os dedos.

 

O Natal

chega depois de tudo.


Maria da fonte

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

 



São cogumelos abertos,

os beijos do meu amor.

Nascem em troncos de outono,

como nascem as formigas,

e, em dias de muita chuva,

abrigam o meu senhor.

 

Salteados como lâminas

nas margens do rio Tormes,

os beijos do meu amor,

livres, sem dono marcado,

viajam na minha boca

 e na outra boca ao lado.

 

Maria da Fonte

terça-feira, 25 de novembro de 2025

 

À noite,

escorrem-me pelas paredes

pensamentos carregados de pelo,

orelhas pontiagudas

e finas membranas entre os dedos.

 

À noite,

ombro a ombro comigo,

quando nem o coração

enche o meu quarto vazio.


 Maria da Fonte

sábado, 15 de novembro de 2025

 

 

Não importa à liberdade

o peso da tua roupa,

a tempestade da voz,

ou o olhar visceral.

 

Que a liberdade não traz

os números de uma balança,

nem o veludo das formas,

nem lâminas luminosas,

nem ouvidos de metal.

Maria Da Fonte

Monumento à Liberdade, de Jorge Vieira



sexta-feira, 14 de novembro de 2025

 

Para a velhice,

fiz os pássaros mais rasos.

 

Sou quase nuvem,

e há quem diga por aí que agora

só preciso de erguer uma gaiola.


Maria da Fonte