Abri demoradamente o teu lugar
e devagar sacudi o medo.
Depois,
exposta ao ardil das montanhas,
deixei cair
as palavras como trilhos.
Picotei nas pedras mornas
o regresso
e acomodei no fundo do poema
o meu sossego.
É pouco, meus senhores.
É muito pouco,
o dia com a fita colorida.
Já foram ao portal do INE?
Já ouviram falar em equidade?
Em saúde?
Em salário?
Cultura?
Lazer?
Emprego?
Direitos?
Já ouviram falar em expectativa?
Oitenta e três, meus senhores.
Oitenta e três.
É esta a esperança média de vida.
Ai meu amor! Meu amor!
Vamos na quinta edição.
Enquanto tu me dizias,
eu segurava o teu rosto
e limpava um camarão.
Todas as letras caíam
nos meus dedos com fulgor,
carregadas por inteiro,
como cai a rendição,
a misturar o sabor.
Ai meu amor! Meu amor!
O que ontem me pareceu brilho
hoje parece suor.
Maria da Fonte
Imagem retirada da Internet
E os poetas,
que se consomem
com metáforas alinhavadas
numa colher de sopa,
querem-nos convencer
de que um punhado de poemas no
bolso
deixa a morte sem poder.
Dizem, em manifestos,
que a poesia salva cidades,
que há sempre a possibilidade
de trocar um pão por uma flor.
E meio pão e um livro,
diz o poeta,
não deixam ninguém
morrer.
Maria da Fonte
São cogumelos abertos,
os beijos do meu amor.
Nascem em troncos de outono,
como nascem as formigas,
e, em dias de muita chuva,
abrigam o meu senhor.
Salteados como lâminas
nas margens do rio Tormes,
os beijos do meu amor,
livres, sem dono marcado,
viajam na minha boca
e na outra boca ao lado.