terça-feira, 18 de janeiro de 2022


 

«Dobrada entre os crocodilos»

(Adília Lopes)

 

Sempre que a noite vem de véspera,

enrosca-se como um embrião,

deixa cair os braços

na neblina,

os olhos perdem-se na rota.

 

As palavras param no vagar dos gestos,

as horas morrem-lhe na boca.

 

E como se não bastassem

as calças puídas

 e a sombra tímida nos dedos,

os dias afundam-se nos bolsos.

 

A ausência chega rouca.

 

Maria da Fonte

 

domingo, 2 de janeiro de 2022

 




Avó,

deixa o tacho sossegado

e vem refastelar-te no veludo

encardido

da vida corriqueira.

 

Olha, avó,

um acrobata,

um sentado à porta do paraíso,

outro que chama ao vesúvio

cogumelo.

 

Que macios ficam os dias

sem Pompeia!

 

E os homens em ponto caramelo.

 

Maria da Fonte

 

 

sábado, 9 de outubro de 2021

 



Aporto no espelho o rosto engelhado.

Imagino canais e um barco de junco.

Conservo ainda nas mãos tiritantes

a escova de nylon

e o vacilar do vento.

 

Do detalhe do barco ao grande plano

das madeixas no rosto

e as rugas ao fundo,

ressaltam os lábios a sulcar as ondas,

os olhos redondos

e o mapa do mundo.

 

Um rímel, um lápis,

um batom. Talvez.

Que nos intervalos das canções que levo,

 no espelho que tenho,

só morra uma vez.

 

Maria da Fonte

https://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra10439/mulher-no-espelho

terça-feira, 31 de agosto de 2021

 


Por encomenda, articularam-me os gestos.

A rotina de uma mulher sem rosto

que arruma o olhar no fundo da gaveta.

 

Aproveitei as correntes de ar,

dei formas às cortinas,

eco aos pássaros

e carreguei os sonhos para parte incerta.

 

Se me perguntarem o que sobrou de mim,

um espaço despido

nas ranhuras da mão,

um voo nos bolsos

e o amor a uma distância incalculável.

 

Maria da Fonte

terça-feira, 17 de agosto de 2021

 


Imagina que a terra é um planeta

entre papiros, pergaminhos e papéis.

Entre camadas e placas movediças,

medidas calculadas de revistas,

ângulos e perímetros

de jornais.

 

Imagina que a terra é tudo isto.

Marilyn Monroe,

quase um vulcão

na sua saia rodada.

 

E mais tu e eu e biliões

como rastilhos.

 

O flash do tamanho de uma mala.

 

Maria da Fonte

Pintura Edy Freitas

 

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

 








Aqui acaba o ruído mundo.

As mãos cortam as ondas

e os olhos abraçam o mar sem entraves.

 

Eu prossigo em pés de areia até ao poema,

sob olhar atento das rochas em fuga

 

e a cumplicidade, sem raízes, das aves.

 

Maria da Fonte



domingo, 1 de agosto de 2021

 







Nua de peito

porque toda eu sou desnorte

para desolação dos justos.

 

Vergar-me para varrer do corpo este pecado?


Só se for para alongar

 o lampejar lascivo

do decote.


Maria da Fonte