Não me venham com torresmos,
nem chazinhos de hortelã,
que a prótese mal ajustada
e a viagem dos torresmos
nesse túnel preguiçoso,
andando de lá para cá,
trouxeram-me disfagia.
Nem sapos engulo já.
Hoje, amigo,
relembra aos descendentes
que não há bufos
nem trabalhos forçados.
Podem sair por aí de braços dados,
sem farda de ultramar
nem passos alinhados.
Hoje, amigo,
ainda não estás gasto.
Torna-te barco sem cais onde ancorar.
E o lápis de outrora,
alçado como mastro,
que seja o cravo vermelho
em alto-mar.
Hoje é abril, amigo
(que descanso).
Que o pulso firme
te
corrija o braço.
Voltar atrás — não voltes nunca mais,
e nem sequer para ganhar balanço.
Maria da Fonte
É pouco, meus senhores.
É muito pouco,
o dia com a fita colorida.
Já foram ao portal do INE?
Já ouviram falar em equidade?
Em saúde?
Em salário?
Cultura?
Lazer?
Emprego?
Direitos?
Já ouviram falar em expectativa?
Oitenta e três, meus senhores.
Oitenta e três.
É esta a esperança média de vida.
Ai meu amor! Meu amor!
Vamos na quinta edição.
Enquanto tu me dizias,
eu segurava o teu rosto
e limpava um camarão.
Todas as letras caíam
nos meus dedos com fulgor,
carregadas por inteiro,
como cai a rendição,
a misturar o sabor.
Ai meu amor! Meu amor!
O que ontem me pareceu brilho
hoje parece suor.
Maria da Fonte
Imagem retirada da Internet
E os poetas,
que se consomem
com metáforas alinhavadas
numa colher de sopa,
querem-nos convencer
de que um punhado de poemas no
bolso
deixa a morte sem poder.
Dizem, em manifestos,
que a poesia salva cidades,
que há sempre a possibilidade
de trocar um pão por uma flor.
E meio pão e um livro,
diz o poeta,
não deixam ninguém
morrer.
Maria da Fonte