sábado, 25 de abril de 2026

 


Hoje, amigo,
relembra aos descendentes
que não há bufos
nem trabalhos forçados.
Podem sair por aí de braços dados,
sem farda de ultramar
nem passos alinhados.
 
Hoje, amigo,
ainda não estás gasto.
Torna-te barco sem cais onde ancorar.
E o lápis de outrora,
alçado como mastro,
que seja o cravo vermelho
em alto-mar.
 
Hoje é abril, amigo
(que descanso).
Que o pulso firme
 te corrija o braço.
Voltar atrásnão voltes nunca mais,
e nem sequer para ganhar balanço.


Maria da Fonte
 
 


domingo, 22 de março de 2026


Abri demoradamente o teu lugar

e devagar sacudi o medo.


Depois,

exposta ao ardil das montanhas,

deixei cair

as palavras como trilhos.

 

Picotei nas pedras mornas

o regresso

e acomodei no fundo do poema

 o meu sossego.

 

 Maria da Fonte

 

domingo, 8 de março de 2026

 


É pouco, meus senhores.

É muito pouco,

o dia com a fita colorida.

 

Já foram ao portal do INE?

Já ouviram falar em equidade?

Em saúde?

Em salário?

Cultura?

Lazer?

Emprego?

Direitos?

 

Já ouviram falar em expectativa?

 

Oitenta e três, meus senhores.

Oitenta e três.

É esta a esperança média de vida.

 

 Maria da Fonte

domingo, 15 de fevereiro de 2026

 

 
Aqui fica o rescaldo do dia dos namorados.

Ai meu amor! Meu amor!

Vamos na quinta edição.

 

Enquanto tu me dizias,

eu segurava o teu rosto

e limpava um camarão.

 

Todas as letras caíam

nos meus dedos com fulgor,

carregadas por inteiro,

como cai a rendição,

a misturar o sabor.

 

Ai meu amor! Meu amor!

O que ontem me pareceu brilho

hoje parece suor.

Maria da Fonte

Imagem retirada da Internet

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

 



E os poetas,

que se consomem

com metáforas alinhavadas

numa colher de sopa,

querem-nos convencer

de que um punhado de poemas no bolso

deixa a morte sem poder.

 

Dizem, em manifestos,

que a poesia salva cidades,

que há sempre a possibilidade

de trocar um pão por uma flor.

 

E meio pão e um livro,

diz o poeta,

não deixam ninguém

morrer.

Maria da Fonte

domingo, 11 de janeiro de 2026

                                                                     



                                                                                                           Mulher,

assim calibrada,

com bloco de notas,

tambor e botões,

 

assim magnética,

de motor giratório

e custo reduzido,

 

assim ajustada,

de corrente contínua

e grandes precisões,

 

és a voz sem a vez

e um lanço de escadas,

para duas profissões.

 

Maria da Fonte

Imagem retirada da Internet 



terça-feira, 23 de dezembro de 2025

 



Havia ainda um último fósforo

para acender as palavras

e abrir uma porta para o mundo.

 

Mas as leis sabem a pólvora,

as metáforas

explodem nas mãos

e os homens lançam por terra os dedos.

 

O Natal

chega depois de tudo.


Maria da fonte