sexta-feira, 31 de maio de 2019

O mundo no poema


No poema
o mundo embaraça. Não dá jeito nenhum
em nenhum lado. Na mesa destoa da jarra e do retrato,
nas gavetas fica enorme e é pesado.

Atirava-o sorrateiramente pela janela,
como quem deixa cair a bola ao chão. Escondia-o
debaixo do tapete ou prendia-o pela corrente ao meu portão.

E não é que eu seja impertinente,  desleixada, impaciente
 ou de má raça, mas é que, sempre que entra
no poema, o mundo esperneia e faz pirraça.



Maria da Fonte

sexta-feira, 26 de abril de 2019

Abril é abrandar o passo




                                      
Abril é abrandar o passo

quando levo o meu filho pela mão,
dizer-lhe em palavras pequeninas
que Abril não se faz sem coração.
Abril é o meu super-herói 
e há de ser o seu herói também,
é só desafiar cada limite
dos sonhos que se veem mais além. 
Abril é de todos, digo-lhe eu.
É de gente grisalha e gente à rasca,
do doutor de cravo na lapela
e do homem que apodrece ao pé da tasca. 
Abril é do menino abandonado
que soletra a esmola já de cor
e do menino que o leva pelo braço
e lhe diz que Abril é bem maior.

Abril poderá ser liberdade

quando abrandar o passo mais alguém
e disser claramente a uma criança
que Abril não é só de quem o tem.


Maria da Fonte

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019



Cravem-me os dias nos ossos,
Sucumba, se for preciso.

Que no atril do choro
seja manhã, meu amor,
se a minha boca couber
inteira  no teu sorriso.

Maria da Fonte

domingo, 28 de outubro de 2018

No perímetro da morte


Parece-me bem que a vida

dê as suas voltas

para encaixar no perímetro da morte.



O mestre sabe que os cálculos

entre uma e outra distância

não trazem números inteiros

mas valores arredondados.



E se as sequências ditam

resultados variáveis

que a memória armazena

ou com destreza remove,

talvez  os sonhos garantam

um valor acrescentado. 



Deus tira a prova dos nove.

Maria da Fonte


quinta-feira, 9 de agosto de 2018


Ao meu chapéu de aba larga,
regresso sempre que posso,
sem o ajuste das tranças
e o adivinhar do esboço.

Baloiço no fio das horas
e no cheiro longo dos dias.
Levo das manhãs a alma,
e do vento a teimosia.


Maria da Fonte
Imagem retirada da internet





quarta-feira, 18 de julho de 2018

Deixa-me morar fora das varandas



Não me empurres as palavras com os dedos,
nem me acordes com os olhos da tua rua.
Deixa-me morar fora das varandas
e ajeitar dentro de mim o coração.

Não te queiras refém das minhas mágoas,
nem te deixes adormecer nos meus medos.

E se alguém te disser que o tempo é certo
e que as horas cabem em qualquer segredo,
não acredites.

Tu sabes que as tardes têm formas

onde só, de vez em quando, nós cabemos.

Maria da Fonte

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Tac tac tac tac




nas costas da minha mão.
Não é relógio de pulso
nem  bater de coração.
É a máquina, é a linha,
é a voz do meu patrão.

Tac tac tac tac
mais à frente , mais atrás.
Os olhos como faúlhas,
cose que cose, rapaz.

 Tac tac tac tac
já tenho as pernas cansadas.
 Os moldes ficam tão alto,
subo e desço escadas.

Tac tac tac tac
feito um moinho de vento.
Faz-me poeira dos dedos
e nuvem do pensamento.

Tac tac tac tac
abaixo do coração,
onde cabia escondido
mais um pedaço de pão.


Tac tac tac tac
podia ser uma bola
e a baliza esta máquina
que me cose a camisola.

Tac tac tac tac
Tac tac tac tac
Tac tac tac tac
vai batendo sempre, sempre,
como o sol que aqui nasce 
e morre no ocidente.

Maria da Fonte