domingo, 2 de maio de 2021
quinta-feira, 1 de abril de 2021
Ainda assim, alinhas os pássaros
por trás do destino.
Emendas o friso, pontilhas as asas
em curtos prefácios,
soletras o fôlego discreto dos ninhos.
Ainda assim, evocas as ondas
sem saber ao certo a leveza dos
traços.
Hidratas as rugas, retocas as
rotas
e vestes o rosto, molhado,
de barcos.
ajustas as sombras
à escala tonal.
Tivesses tu tempo,
combinavas as cores
e davas à tela um toque final.
terça-feira, 23 de março de 2021
Nos intervalos do vento,
pressiona mais a mão.
Move o lápis devagar por entre
pontos e linhas,
numa simetria básica,
a sugerir rotação.
Assim de braços abertos,
fica o homem e o subalterno.
O esboço a deslizar
pela rotina do traço,
numa espécie de contraste
entre o céu e o inferno.
sábado, 27 de fevereiro de 2021
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021
Difícil
é guardar-te na parede
sem o cheiro sequer do teu
cansaço.
E os meus dedos cravados na
moldura,
imaginar-te partir sem um abraço.
Difícil
é colar o meu ouvido ao teu medo
e fingir que, distraída, não ouvi.
Passar os olhos de pavor pela parede
e sentir que esse pavor vinha de
ti.
Difícil
é deixar cair o choro
no silêncio da parede que o
colheu.
Encostar o teu retrato ao meu
peito
e pensar que o meu choro era o
teu.
domingo, 31 de janeiro de 2021
Ao fim da minha rua
há um violino de peito maciço e
ancas largas.
Pela madrugada brinda-nos com
Bach,
às oito da manhã afina as cordas.
Depois há musical em digressão.
Pregas vocais abertas como
arcadas, homens de bocas disformes
às janelas, mulheres em varandas
desgrenhadas.
No quarto andar, em jeito de
soprano,
há pelas cadeiras toalhas e um
tacho.
Da janela guilhotina, com ares de
bilheteira,
sai um penálti em barítono
e um baixo.
Em ponto, um som metálico e fumarento
e o trecho de um bacalhau à brás.
Em ré, uma corda descontrolada
e a silhueta agoirenta de um rapaz.
Soltam-se as vozes.
Nessa hora, cai o pano. As notas
musicais
saem de cor.
O violino aveludado jaz sem formas.
O barítono, pela madrugada, em sol
maior.
sábado, 14 de novembro de 2020
Inclina-te sobre os homens que anoitecem,
toma-lhes as mãos das molduras e
segreda-lhes retratos como beijos.
Não sacudas, nem levantes as palavras,
se alguma nuvem solta se afigura.
Recolhe o frio calada
e faz o céu que puderes àquela hora.
Quando levantas a voz, nada que é teu ganha altura.
Maria da Fonte






