quarta-feira, 9 de setembro de 2026

 

Ai, Ponte de Lima, diz-me

onde vais tu tão ligeira,

no teu vestido de folhos,

a fingir-te de solteira.

 

Ai, que inveja que te tenho

quando vejo os foliões

rendidos às tuas rendas,

com piropos e canções.

 

Tu, que desces a avenida,

no teu ar de desafio,

e que te encostas à ponte

só para te veres no rio.

 

E eu, que estou à janela,

a vigiar o marido,

com medo que ele se esconda

na roda do teu vestido.

Maria da Fonte

 

terça-feira, 1 de setembro de 2026

 


Era um sonho de pernas leves,

olhos verdes, bico escuro

e asas muito abertas

para agarrar o futuro.

 

Era um menino também,

com mãozinhas de algodão,

que, com palavras macias,

guiava o sonho do chão.

 

Era o vento que se erguia

com tamanha rapidez

e um sonho que caía

e que voava outra vez.

 

Era um menino, era um sonho

e um vento com uma missão,

para que nenhum dos três

pudesse ficar no chão.

Maria da Fonte

( imagem retirada da internet)

domingo, 23 de agosto de 2026

 



Há lugares onde a noite chega
para deixar poemas estendidos pelos cantos,
como se pressentisse o esgar disponível das sombras.

As palavras ainda húmidas de saliva germinam nas janelas.
Até que a manhã tropeça nas flores que se afastam das horas
e o tempo deixa crescer dentro de nós os versos.

É assim que os dias fogem dos vasos sem margens
e nós, sem saber porquê, estamos tão perto de tudo.

 

Maria da Fonte

quarta-feira, 5 de agosto de 2026


Não me venham com torresmos,

nem chazinhos de hortelã,

que a prótese mal ajustada

e a viagem dos torresmos

nesse túnel preguiçoso,

andando de lá para cá,

trouxeram-me disfagia.


Nem sapos engulo já.




Maria da Fonte

sábado, 25 de abril de 2026

 


Hoje, amigo,
relembra aos descendentes
que não há bufos
nem trabalhos forçados.
Podem sair por aí de braços dados,
sem farda de ultramar
nem passos alinhados.
 
Hoje, amigo,
ainda não estás gasto.
Torna-te barco sem cais onde ancorar.
E o lápis de outrora,
alçado como mastro,
que seja o cravo vermelho
em alto-mar.
 
Hoje é abril, amigo
(que descanso).
Que o pulso firme
 te corrija o braço.
Voltar atrásnão voltes nunca mais,
e nem sequer para ganhar balanço.


Maria da Fonte
 
 


domingo, 22 de março de 2026


Abri demoradamente o teu lugar

e devagar sacudi o medo.


Depois,

exposta ao ardil das montanhas,

deixei cair

as palavras como trilhos.

 

Picotei nas pedras mornas

o regresso

e acomodei no fundo do poema

 o meu sossego.

 

 Maria da Fonte

 

domingo, 15 de fevereiro de 2026

 

 
Aqui fica o rescaldo do dia dos namorados.

Ai meu amor! Meu amor!

Vamos na quinta edição.

 

Enquanto tu me dizias,

eu segurava o teu rosto

e limpava um camarão.

 

Todas as letras caíam

nos meus dedos com fulgor,

carregadas por inteiro,

como cai a rendição,

a misturar o sabor.

 

Ai meu amor! Meu amor!

O que ontem me pareceu brilho

hoje parece suor.

Maria da Fonte

Imagem retirada da Internet

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

 



E os poetas,

que se consomem

com metáforas alinhavadas

numa colher de sopa,

querem-nos convencer

de que um punhado de poemas no bolso

deixa a morte sem poder.

 

Dizem, em manifestos,

que a poesia salva cidades,

que há sempre a possibilidade

de trocar um pão por uma flor.

 

E meio pão e um livro,

diz o poeta,

não deixam ninguém

morrer.

Maria da Fonte

domingo, 11 de janeiro de 2026

                                                                     



                                                                                                           Mulher,

assim calibrada,

com bloco de notas,

tambor e botões,

 

assim magnética,

de motor giratório

e custo reduzido,

 

assim ajustada,

de corrente contínua

e grandes precisões,

 

és a voz sem a vez

e um lanço de escadas,

para duas profissões.

 

Maria da Fonte

Imagem retirada da Internet 



terça-feira, 23 de dezembro de 2025

 



Havia ainda um último fósforo

para acender as palavras

e abrir uma porta para o mundo.

 

Mas as leis sabem a pólvora,

as metáforas

explodem nas mãos

e os homens lançam por terra os dedos.

 

O Natal

chega depois de tudo.


Maria da fonte

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

 



São cogumelos abertos,

os beijos do meu amor.

Nascem em troncos de outono,

como nascem as formigas,

e, em dias de muita chuva,

abrigam o meu senhor.

 

Salteados como lâminas

nas margens do rio Tormes,

os beijos do meu amor,

livres, sem dono marcado,

viajam na minha boca

 e na outra boca ao lado.

 

Maria da Fonte

terça-feira, 25 de novembro de 2025

 

À noite,

escorrem-me pelas paredes

pensamentos carregados de pelo,

orelhas pontiagudas

e finas membranas entre os dedos.

 

À noite,

ombro a ombro comigo,

quando nem o coração

enche o meu quarto vazio.


 Maria da Fonte

sábado, 15 de novembro de 2025

 

 

Não importa à liberdade

o peso da tua roupa,

a tempestade da voz,

ou o olhar visceral.

 

Que a liberdade não traz

os números de uma balança,

nem o veludo das formas,

nem lâminas luminosas,

nem ouvidos de metal.

Maria Da Fonte

Monumento à Liberdade, de Jorge Vieira



sexta-feira, 14 de novembro de 2025

 

Para a velhice,

fiz os pássaros mais rasos.

 

Sou quase nuvem,

e há quem diga por aí que agora

só preciso de erguer uma gaiola.


Maria da Fonte

sábado, 11 de outubro de 2025

 


 

Há saudades que ali ficam,
presas às tintas do muro.

São beijos cheios de frio
que anoitecem como bússolas
e moram dentro de tudo.

Há saudades que nos chamam
e nos param de repente,

que chegam como um combate
sem contornos definidos
e nos moldam lentamente.

 

Maria da Fonte

terça-feira, 29 de julho de 2025

 


                                                 

Quando eu nasci, as manhãs chegavam,

sem o estudo do mercado,

com as horas fermentadas

e sabor a feijão branco.

 

Quando eu nasci, a voz de minha mãe

subia a passo firme

pelas janelas

e o céu andava sempre pelos telhados.

 

 

Depois, chegaram os outros

e alguém se lembrou

de me dizer que a terra vacilava

e o sol nem se movia.

 

 

Foi então que eu, já tão morta de cansaço

e já tão desgovernada,

saí sozinha de casa

e caí na poesia.

 

 Maria da Fonte

terça-feira, 22 de julho de 2025

 


Resolveram acabar com a guerra,

já não havia meninos para matar.

 

Os homens de palavra

abriram os braços

com água macia entre os dedos

(para lavar as páginas dos jornais)

 

e os soldados partiram sem destino,

com a farda puída de cansaço

e o sonho curvado ao gatilho.


Maria da Fonte

terça-feira, 8 de julho de 2025

 


Faz-te de barro,

frágil como um jarro.

Cheia de medos

e angústias sem nome.

 

Contrai o peito,

arquiva os desaires,

impulsiona a dor até ao chão.

 

Com a palavra mais longa do mercado,

carrega o verbo,

pontua a desgraça.

 

Se ainda houver

quem te não reconheça,

põe-te de cócaras.

 

E, num punhado azedo

de metáforas,

retoca a sombra

redonda dos teus dias.


Maria da Fonte

Imagem retirada da internet

domingo, 15 de junho de 2025

 



Todas as tardes,

de sapatos gastos,

 descia a ladeira

a buzinar ao vento.

 

E agachada

nas curvas de um gato,

atirava as pernas

e trepava o tempo.

 

 

Nos ramos rijos

de arcos de caça,

 desenhava as horas

e esticava a mão.

 

 

Dizia-as maduras

como ampulhetas

ou tambor de férias,

sem cair ao chão.

 

 

Minha mãe ouvia

e simulava a queda

enquanto estendia

a colher da sopa.

 

 

Eu balbuciava

palavras sem margens

que as horas cabiam…

 

E abria a boca.



Maria da Fonte