quinta-feira, 1 de abril de 2021

 


Ainda assim, alinhas os pássaros

por trás do destino.

Emendas o friso, pontilhas as asas

em curtos prefácios,

soletras o fôlego discreto dos ninhos.

 

Ainda assim, evocas as ondas

sem saber ao certo a leveza dos traços.

Hidratas as rugas, retocas as rotas

e vestes o rosto, molhado,

 de barcos.

 

 Ainda assim, crias pontos de fuga,

ajustas as sombras

à escala tonal.

 

Tivesses tu tempo,

combinavas as cores

e davas à tela um toque final.

 


Maria da Fonte

terça-feira, 23 de março de 2021

 


Nos intervalos do vento,

pressiona mais a mão.

 

Move o lápis devagar por entre pontos e linhas,

numa simetria básica,

a sugerir rotação.

 

Assim de braços abertos,

fica o homem e o subalterno.

 

O esboço a deslizar

pela rotina do traço,

 

numa espécie de contraste

entre o céu e o inferno.



  Maria da Fonte

Homem Vitruviano

sábado, 27 de fevereiro de 2021

 


Com as palavras que me deste

fiz um rascunho.

Guardei um abraço por instinto.

Depois, deixei cair as mãos,

atravessei os dias,

envelheci por aí o pensamento.

 

Agora, que o silêncio me alaga os dedos

 e os  braços estão sem margens,

podia passar tudo a limpo.


Maria da Fonte

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

 


Difícil

é guardar-te na parede

sem o cheiro sequer do teu cansaço.

E os meus dedos cravados na moldura,

imaginar-te partir sem um abraço.

 

Difícil

é colar o meu ouvido ao teu medo

e fingir que, distraída, não ouvi.

Passar os olhos de pavor pela parede

e sentir que esse pavor vinha de ti.

 

Difícil

 é deixar cair o choro

no silêncio da parede que o colheu.

Encostar o teu retrato ao meu peito

e pensar que o meu choro era o teu.

 

 Maria da Fonte

 

domingo, 31 de janeiro de 2021

 


Ao fim da minha rua

há um violino de peito maciço e ancas largas.

Pela madrugada brinda-nos com Bach,

às oito da manhã afina as cordas.

 

Depois há musical em digressão.

Pregas vocais abertas como arcadas, homens de bocas disformes

às janelas, mulheres em varandas desgrenhadas.

 

No quarto andar, em jeito de soprano,

há pelas cadeiras toalhas e um tacho.

Da janela guilhotina, com ares de bilheteira,

sai um penálti em barítono

e um baixo.

 

Em ponto, um som metálico e fumarento

e o trecho de um bacalhau à brás.

Em ré, uma corda descontrolada

e a silhueta agoirenta de um rapaz.

 

Soltam-se as vozes.

Nessa hora, cai o pano. As notas musicais

saem de cor.

O violino aveludado jaz sem formas.

 

O barítono, pela madrugada, em sol maior.

 

 Maria da Fonte

 

sábado, 14 de novembro de 2020

 


Inclina-te sobre os homens que anoitecem,

toma-lhes as mãos das molduras e

segreda-lhes retratos como beijos.

 

Não sacudas, nem levantes as palavras,  

se alguma nuvem solta se afigura.

 

Recolhe o frio calada

e faz o céu que puderes àquela hora.

 

Quando levantas a voz, nada que é teu ganha altura.


Maria da Fonte

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

 


Que a tarde foi isolada no perímetro da sombra,

declara-se nas varandas

 luto em primeira mão.

 

Da torre, um relógio atónito

recolhe os dados clínicos,

atualiza o histórico e mede-lhe a pulsação.

 

O quadro é reservado,

batimentos arrastados. Bradicardia, profere.

 

Do outro lado da rua, velhos estáticos como barras

(um metro e meio os sucede)

a fazer lembrar capelas

 

ou gráficos 

confinados às molduras de parede.