sábado, 21 de fevereiro de 2015

Havemos de morrer mais adiante




Se a noite cai nos corpos seminus,
a lua ergue-se em nós como um pilar.


E num misto de feitiço, eu e tu
subimos entre a noite e o luar.


A bruma desce, rega em nós o prado,
e outro céu mais alto se levanta.


Neste avançar um barco se anuncia.
Há horizonte num mar que se agiganta.

Seguimos obstinados a maresia,
fechados na moldura do instante.


Brindamos cada onda até ser dia.
Havemos de morrer…. mais adiante.

Maria da Fonte
Imagem retirada da internet


domingo, 18 de janeiro de 2015


Desce devagar
a sombra do poema.
Não te quedes nas ondas geladas
do meu corpo,
onde não há senão
a impressão temporária do meu nome.

Senta-te demoradamente
em cada verso
e deixa-te esperar
pelo sacudir das madrugadas.
Talvez as palavras
se rasguem nessa espera
e tu possas colher
no olhar as linhas do teu rosto.

Não chames o meu nome
em parte alguma.
Entre o vacilar das letras,
adormeço.
Recolhe-as transparentes,
uma a uma.
Dá-lhes a alma,
um nome, um endereço.

Maria da Fonte
Destino': A Salvador Dali and Walt Disney

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Esperança


Não te vás, Esperança.
Eu tenho medo
das horas que me pulsam
devagar,
da solidão gelada
dos abismos,
dos fantasmas que me prendem
o olhar.

Se me encolho no silêncio,
não te vás.
É tão longa a noite sem luar!
E entre a sombra do meu corpo
e o meu corpo
cabe a lenda
da bruma das manhãs.

Deixa que a terra cresça
em meu olhar,
ainda que o céu das aves
fique longe,
o declive do solo
me acobarde
e a mão vá chegando
sem chegar.


Maria da Fonte

domingo, 28 de dezembro de 2014

A um amigo especial

Eu queria dar-te um poema
sem fronteiras,
pôr-te palavras nas horas
de insossego,
e na distância, AMIGO,
uma estrela
que te guiasse
e te levasse
o medo.

Um poema tão leve
como as aves
que povoam o olhar
da minha mente,
onde os traços
das linhas, mais suaves,
dessem à folha,
talvez, forma
de gente.

Por entre a neve,
eu erguia, afinal,
um sol quente,
em risco leve e fino.
Nas entrelinhas, de novo,
era Natal,
em cada linha,
eu punha
um Deus Menino.

Maria da Fonte


domingo, 23 de novembro de 2014

E se alguém não tiver asas




Minha mãe chegou na primavera,
não suportava , por isso,
variações de temperatura.

Havia mulheres que lhe falavam
de El Niño, como se houvesse
entre elas e Deus um compromisso.

Minha mãe chorava, insegura.
Talvez lhe deixassem no lugar das veias
traços indisciplinados
de uma outra aventura.

De asas no ar, voava
atormentada.
E de nada valia a voz mansa
com que meu pai a afagava.

Depois, pousava os olhos no chão
e desenhava ideias secretas
que cheiravam a uma eterna
tempestade.

Auscultava o ventre
dilatado da terra e tinha enjoos.
Ouvia o rebentar das ondas
e segurava as lágrimas.

Ninguém entendia
a dor de minha mãe.
Se as estações do ano eram rotativas,
por que razão suspendia ela o tempo?

Mas… passaram-se nove meses,
e minha mãe, com o seu jeito meigo,
foi derrubando muros
e voando, a medo, pelas quatro estações.

Hoje, eu sei que, no meu bando,
se alguém não tiver asas nunca cai,
voa mais baixo por entre corações.

Maria da Fonte
APPACDM de Setúbal- terceiro prémio

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Jesus



Jesus, que moldura
se esconde em teu olhar?
Que céu cinzelado
tu seguras?

Em que folha te traço?
que rasuras?
E em que parte
me deixo ali ficar?

Não me peças
um lado, arrefeço.
E a linha que tu és
gela-me o chão.

Faz-me crer, Jesus,
na folha em branco,
sem as margens
que percorro com a mão.

E se o céu que tu levas
é inteiro,
o teu rosto não pode
ser metade .

Diz-me, Jesus,
do chão que tu pisaste.
De que traços se fez?
De que vontade?

Não sei, Jesus! Não sei!
Nasce outra vez,
em parte alguma,
talvez em toda a parte.

Diz-me que és linha
inteira que se fez
em folha branca, Jesus.
Quero guardar-te.

Maria da Fonte
Imagem da internet

domingo, 10 de agosto de 2014

«E assim como o mundo se chama mundo, porque é imundo, e a morte se chama Parca, porque a ninguém perdoa, assim a nossa terra se pode chamar Lusitânia, porque a ninguém deixa luzir» Padre António Vieira


2 políticos devassos,
4 palavras de cor,
3 homens e 6 braços.
Regue q.b. com suor.

Um horizonte farpado,
Uma travessa de prata.
O mesmo sistema usado
No timbre do diplomata.

Repita as interjeições
As vezes que entender.
Um grama de eleições,
O resto do tempo a arder.

Junte um pedaço de mim,
Recorte-me a emoção.
Dissolva tudo assim,
Tal outra rebelião.

Bata tudo outra vez,
Agora muita mais gente.
Talvez consiga, talvez,
Um passado no presente.

Depois, do cimo do pódio,
Espreite o calor do fogão.
Quando já ferver o ódio,
O pitéu vira carvão.

Um balde, água bem fria.
Comece tudo de novo.
Invente, tenha ousadia.
Quem faz o povo, é o povo.

Maria da Fonte