sexta-feira, 18 de novembro de 2022

 


Ontem

inventei o espanto

quando, num jogo de palavras,

me falavas dos meninos que criaram a fome

para maçar a gente de família,

com pia de batismo,

nome e sobrenome.


Ontem

estava sem o tempo contado

e uns trocos no bolso

para comprar cerveja.

Por isso, poeta,

me embebedei de toda a injustiça do mundo.

 

Ontem

afiei o lápis desnutrido

como lâmina

e cortei os dedos,

um a um,

a quem, por vício ou desgarrada,

mutilou a mulher

que podia ter sido

minha mãe.

 

Agora,

enquanto a tarde me morre na folha

e esta gente se empilha

num fora de jogo,

eu imagino-me

empoleirada nas cores de meu país

a recuperar a posse da bola.

Maria da fonte



 

 

 

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

 



O que eu queria

era fazer dos teus olhos escuros e parados

uma ponte.

Imprimir janelas nos escombros,

erguer pilares

e tudo o que é suposto.

 

O que eu queria era que tu

 restaurasses, do drama subterrâneo,

as réplicas de Van Gogh.

Que limpasses os homens de farrapos

e as manchas de chumbo.

 

O que eu queria era que tu me falasses

das vindimas

e que o sol coubesse inteiro

e limpo

no teu rosto.

 Maria da Fonte

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

 

Aquietam-se nos meus olhos

as árvores secas e a lua

ainda morna nos telhados.

 

Atravesso as cinzas da batalha,

a vida dói-me e prende-me neste adeus.

 

Parece tudo morto à minha frente.

Os pássaros encolhem-se nas asas,

as crianças às janelas pedem versos.

 

Eu com esta tosca poesia,

e a terra sem um pedaço de céu.


 Maria da Fonte




sábado, 27 de agosto de 2022

 



Amigos, o mais incrível que me aconteceu

foi eu dar o dito por não dito,

pôr este olhar recôndito de caramujo,

bater com a mão no peito em nome de Cristo

e deixar de ser ateu.

 

Esta ideia de servir o profeta, confesso-vos,

deixa-me descansado.

Digamos que é como se houvesse uma espécie

de novo mundo,

uma rua estreita, em pedra portuguesa,

sem ninguém nas margens,

 só um Deus ao fundo.

 

 Vejamos então,

 Deus não me incomoda.

 Não me fala alto, não me cheira mal,

não segreda avulso nem me pede esmola.

 

Foi daí que eu

comprei um rosário na Feira da Ladra

Já muito em conta.

 

Pendurei na porta

e ganhei o céu.

 

Maria da Fonte

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

 



Como tu sabias que havia outra gente,

de raízes frágeis e nome vulgar.

Gente empoleirada

em dois palmos de tarde

e vagões de carga.

De corpos tão magros,

quase sem lugar.

 

Como tu sabias das últimas chuvas,

dos pés dos meninos cobertos de pó,

dos tanques de guerra,

de abrigos escuros,

da morte que tarda,

do cheiro a pólvora,

da medida exata, do tamanho de tudo.

 

 

E como tu sabias tão airosamente,

 de olhos fechados e sem soletrar,

arquivar a gente.

 

 Maria da Fonte

sábado, 6 de agosto de 2022

 

Se calhar este

regresso pontual

ao meu sorriso desprevenido

confunde o fuso horário

 dos passageiros.

 

Mas eu,

já sem paciência para decifrar

as letras miudinhas,

olho pela janela

e divirto-me com as façanhas de um gato.



Maria da Fonte

 

segunda-feira, 25 de abril de 2022

 






Amigos, levantemos a meia haste

alguns dos nosso motes.

É preciso que se vejam além das nossas varandas.

Ergamo-los até onde o braço der.

 

E assim de mãos nuas,

alinhemos a marcha

e agarremos ao peito o dia inteiro e limpo

como um cravo.

 

Então, os que caminham sem rosto,

calados e tristes,

a mastigar as lágrimas

(sem o detalhe dos poetas),

podem seguir connosco.


   Maria Da Fonte