segunda-feira, 1 de junho de 2020



Era um quarto num rés do chão
muito acanhado,
de parede em pladur
e piso revestido,
quebrado por uma organza cinza fosco
e o tímido sorriso de um postigo.

Em todos os placares da minha rua,
era um quarto desgarrado
onde imagino
uma janela aberta sobre o peito
e o olhar sem tamanho

do inquilino.

Maria da Fonte


sexta-feira, 29 de maio de 2020



Por um fio de luz
desci pouco afinada.

Nada entendia então de partituras,

nem de acordes maiores às varandas,
em horas paradas
e pautas quase puras.


Na timidez, improvisei um grave,
sem o detalhe preciso da altura.

E nos soluços afinei a voz,
acomodei-me discretamente às cordas,

puxei a medo a linha do horizonte,

reajustei-a depois à tessitura.



Maria da Fonte

Imagem retirada da Internet 


sábado, 9 de maio de 2020







Não sei a que livros roubei

as âncoras   e os abraços, que barco eu desenhei

no orvalho do meu rosto e o que agarrei aos mastros.

 

Não sei que pilhagens fiz e onde ajustei o perigo,

em que margens atraquei, que palavras contornei,

que carga trouxe comigo.

 

Não sei se foram os ventos ou as correntes primeiro,

nem sei se o barco que fiz me deu cadastro sequer

de pirata ou marinheiro.

 






Maria da Fonte

Imagem retirada da Internet

Só pode ser um poema

Lanço ao mar o poema, sem nomear capitão,
sem mapa que amanhe as ondas
e as premissas da razão.

Largo-o em alto-mar, desenho-lhe a aflição.
Dou um bote a cada homem e o esboço de uma rota
 sem nenhuma convenção.


Maria da Fonte
Imagem da Internet

domingo, 3 de maio de 2020

Mãe




Mãe, este desarticular de dedos
que me deixa de braços pendurados
e cálculos agarrados à garganta,

esta sensação de dor que mal descrevo,


este pavor tremendo, mãe, que tenho
de te deixar
as mãos sujas de medo.

Maria da Fonte

sexta-feira, 24 de abril de 2020



Parecia-me tão pequeno o céu
na sombra asseada
do pavimento da pele.

E agora, nas paredes impermeáveis da casa
onde os olhos chegam de longe
e o corpo se coíbe,
eu quase me perco nele.

Maria da Fonte


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020



Mulher é desdobrável.
É verdade, Adélia.
É verdade.

Hoje encontrei umas quantas
amachucadas em cabos de vassouras,
e, quando estiquei a mão
para as recolher,
elas repeliram o gesto.

Arriscavam o tiro certeiro.
Já tinham treinado a união de borboleta
entre a fábrica e o mercado,
 o estendal e o canteiro.

Não era, Adélia. Não era protesto
(tu nunca estiveste enganada),
nem sequer falta de jeito.


É esta forma mansa que elas têm
(penso eu)
de aconchegar a razão junto ao peito
sem que ninguém dê por nada…

Ou de pensarem que assim
chegam mais depressa ao céu.


 Maria da Fonte