sexta-feira, 24 de abril de 2020
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020
Mulher é desdobrável.
É verdade, Adélia.
É verdade.
Hoje encontrei umas quantas
amachucadas em cabos de vassouras,
e, quando estiquei a mão
para as recolher,
elas repeliram o gesto.
Arriscavam o tiro certeiro.
Já tinham treinado a união de borboleta
entre a fábrica e o mercado,
o estendal e o canteiro.
Não era, Adélia. Não era protesto
(tu nunca estiveste enganada),
nem sequer falta de jeito.
É esta forma mansa que elas têm
(penso eu)
de aconchegar a razão junto ao peito
sem que ninguém dê por nada…
Ou de pensarem que assim
chegam mais depressa ao céu.
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020
Puxa-se o
lustro à forma,
cria-se um
jeito latente,
molda-se o
corpo de retas
e afina-se
cada corda
até ao ponto
estridente.
Faz-se um
herói outra vez,
com outros
ingredientes.
Uma
embalagem pequena
mais um
código de barras,
com um
gatilho nas mãos
e balas
presas nos dentes.
Maria da
Fonte
Imagem da
internet
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020
Na folha pálida
pouso as linhas largas
sem o rigor de tudo o que é suposto,
e de improviso deixo cair os traços,
como se fossem riscos em cascata
ou rugas soltas pendentes do teu rosto.
Depois, avó, entorno as tintas todas
na mancha branca que ainda me couber,
puxo o teu cheiro manso com as mãos,
procuro avidamente a tua voz
e abro uma frincha de luz
para te ver.
domingo, 19 de janeiro de 2020
Como uma pedra encalhada
Permite-me que eu me demore
em cada hora uma vida.
Que as palavras barricadas
entre vírgulas e gavetas
deixem a sombra crescer
como uma pedra encalhada
nas âmbulas de uma ampulheta.
Deixa-me ter a ilusão
de que posso seguir sem rumo
pela passagem estreita
de uma moldura fechada,
num fio que cai a prumo.
Maria Fonte
sábado, 14 de dezembro de 2019
Ponte da Barca
Na minha terra há santos populares
e serras em correria
que fazem lembrar peregrinações.
Poetas em parágrafos suspensos,
negociadores do tempo a retalho
e pássaros a copular sem cálculos e retóricas.
Na minha terra, as mulheres galgam
a artilharia de palavras mais despachadas que setas,
agitam as vírgulas como cabos
e redobram as vigílias dos profetas.
Porque, na minha terra, há mulheres redondas
como punhos e homens
que aproveitam a vertigem
para dar formas concretas aos sonhos.
sexta-feira, 29 de novembro de 2019
Pensei por breves instantes
ser um velho em oração,
em prantos pouco elegantes
no patamar do portão.
E pelo olhar de viés
ser um velho em oração,
em prantos pouco elegantes
no patamar do portão.
E pelo olhar de viés
que
me lançou de repente,
julguei-o,
mais uma vez,
agarrado
a uma corrente.
Um
terço , tinha a certeza,
e a
oração no começo.
Ele,
com toda a franqueza,
“Um
terço, ficou um terço”.
Já no
segundo mistério,
dizia-lhe
eu entretanto.
Ele
pesaroso e sério,
“Não
sei como encolheu tanto”.
Velho Triste No Portão da Eternidade,Vincent Van Gogh
Maria da Fonte
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