Se calhar este
regresso pontual
ao meu sorriso desprevenido
confunde o fuso horário
dos passageiros.
Mas eu,
já sem paciência para decifrar
as letras miudinhas,
olho pela janela
e divirto-me com as façanhas de um gato.
Maria da Fonte
Amigos, levantemos a meia haste
alguns dos nosso motes.
É preciso que se vejam além das nossas varandas.
Ergamo-los até onde o braço der.
E assim de mãos nuas,
alinhemos a marcha
e agarremos ao peito o dia inteiro e limpo
como um cravo.
Então, os que caminham sem rosto,
calados e tristes,
a mastigar as lágrimas
(sem o detalhe dos poetas),
podem seguir connosco.
Maria Da Fonte
Já quase não há meninos
por esses lados.
Chegam irremediavelmente sós
com uma lista de sonhos.
Por aqui, as prateleiras ficam
altas
e os artigos andam fora de lugar.
Não sei se os meninos sabem de cor
as hipotecas,
se os pais esperam pelo almoço,
nem sequer se haverá tempo
para os aviar.
Maria da Fonte
«Dobrada entre os crocodilos»
(Adília Lopes)
Sempre que a noite vem de véspera,
enrosca-se como um embrião,
deixa cair os braços
na neblina,
os olhos perdem-se na rota.
As palavras param no vagar dos gestos,
as horas morrem-lhe na boca.
E como se não bastassem
as calças puídas
e a sombra tímida nos
dedos,
os dias afundam-se nos bolsos.
A ausência chega rouca.
Maria da Fonte
Imagino canais e um barco de junco.
Conservo ainda nas mãos tiritantes
a escova de nylon
e o vacilar do vento.
Do detalhe do barco ao grande plano
das madeixas no rosto
e as rugas ao fundo,
ressaltam os lábios a sulcar as ondas,
os olhos redondos
e o mapa do mundo.
Um rímel, um lápis,
um batom. Talvez.
Que nos intervalos das canções que levo,
no espelho que tenho,
só morra uma vez.
Maria da Fonte
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