domingo, 31 de janeiro de 2021

 


Ao fim da minha rua

há um violino de peito maciço e ancas largas.

Pela madrugada brinda-nos com Bach,

às oito da manhã afina as cordas.

 

Depois há musical em digressão.

Pregas vocais abertas como arcadas, homens de bocas disformes

às janelas, mulheres em varandas desgrenhadas.

 

No quarto andar, em jeito de soprano,

há pelas cadeiras toalhas e um tacho.

Da janela guilhotina, com ares de bilheteira,

sai um penálti em barítono

e um baixo.

 

Em ponto, um som metálico e fumarento

e o trecho de um bacalhau à brás.

Em ré, uma corda descontrolada

e a silhueta agoirenta de um rapaz.

 

Soltam-se as vozes.

Nessa hora, cai o pano. As notas musicais

saem de cor.

O violino aveludado jaz sem formas.

 

O barítono, pela madrugada, em sol maior.

 

 Maria da Fonte

 

sábado, 14 de novembro de 2020

 


Inclina-te sobre os homens que anoitecem,

toma-lhes as mãos das molduras e

segreda-lhes retratos como beijos.

 

Não sacudas, nem levantes as palavras,  

se alguma nuvem solta se afigura.

 

Recolhe o frio calada

e faz o céu que puderes àquela hora.

 

Quando levantas a voz, nada que é teu ganha altura.


Maria da Fonte

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

 


Que a tarde foi isolada no perímetro da sombra,

declara-se nas varandas

 luto em primeira mão.

 

Da torre, um relógio atónito

recolhe os dados clínicos,

atualiza o histórico e mede-lhe a pulsação.

 

O quadro é reservado,

batimentos arrastados. Bradicardia, profere.

 

Do outro lado da rua, velhos estáticos como barras

(um metro e meio os sucede)

a fazer lembrar capelas

 

ou gráficos 

confinados às molduras de parede.


domingo, 8 de novembro de 2020

 


Como se enganam os senhores da alta-costura

quando ajustam a gente à etiqueta

e penhoram as ancas no tecido.

 

Chegam sempre de madrugada neste registo.

Trazem no peito a praça e um cabide,

como se fossem poetas

e as mulheres redondilhas

sem lugar a pernas flácidas.

 

Os senhores de alta-costura

engomam versos em série

e gastam as  horas  nisto.

 

Maria da Fonte

Fernando Botero

 

 

terça-feira, 6 de outubro de 2020

 


Depois de tudo,

servi-me a data

com pompa e circunstância.

 

E ajudai-me a diluir este remorso

de ter esquecido o lugar e a hora exata.

 

Não soube amar os gestos nas fachadas.

Valho-me de retalhos de nuvens,

 supostamente incauta.

 

Nos arredores de mim,

que caia a noite como uma nódoa solta.

 

Maria da Fonte

Imagem retirada da internet

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

 


Se o coração soubesse

que o poema me deixa sem chão,

que os olhos me fogem

e as horas rebolam

sem fauna ou flora.

 

Se o coração soubesse

que os dias me queimam

nas costuras das mãos

e a pele desprende

dos dedos de corda.

 

Se o coração soubesse,

parava-me agora.

 

Maria da Fonte

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

 

Dê palpites sobre a linha,

o padrão e a textura,

o clima, se quiser.

 

Até à última prova,

proteste o ponto corrido,

o decote do vestido

e o forro, quando o tiver.

 

Ponha defeitos em tudo,

a cambraia, a seda pura,

a viscose mal cosida

e o fio curto a prender.

 

Trace o tamanho do pano,

a roda larga ao vestido,

o rodopio do vento

sem uma fibra sequer.

 

Que, ainda que não permita,

há quem num pano de pó

abafe por completo

as pernas de uma mulher.


Maria da Fonte

Imagem retirada da internet