domingo, 30 de agosto de 2020

 



Ainda que o teorema determine

que o cálculo tem por base

 dois princípios cruciais na operação,

há olhos que não encontram a área de uma figura

e cores que se incendeiam

e embatem como facas

nas falhas do coração.

 

Maria da Fonte

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

 


Palavras em linha reta

numa estrutura bem simples,

com materiais sustentáveis

e ampla ventilação.

 

Quatro pilares tracejados

a deixar cortar o vento

e uma janela entreaberta

para abreviar o medo

que atravessar a razão.

 

Uma porta desarmada

na moldura habitual

e uma varanda que beba

o disparo de um coração.

 

Fica o projeto em conta

e muito funcional.

 

Maria da Fonte

 

segunda-feira, 27 de julho de 2020




e humedece-me os dedos com que agarro as folhas
e avanço de improviso
pelos socalcos do livro.

Não preciso de me esconder atrás das sombras,
nem de amordaçar o vento que não seguro,

basta que a pressa dos olhos
leve nas mãos os ramos

e deste ângulo do olhar
eu prenda tudo.

Maria da Fonte


segunda-feira, 1 de junho de 2020



Era um quarto num rés do chão
muito acanhado,
de parede em pladur
e piso revestido,
quebrado por uma organza cinza fosco
e o tímido sorriso de um postigo.

Em todos os placares da minha rua,
era um quarto desgarrado
onde imagino
uma janela aberta sobre o peito
e o olhar sem tamanho

do inquilino.

Maria da Fonte


sexta-feira, 29 de maio de 2020



Por um fio de luz
desci pouco afinada.

Nada entendia então de partituras,

nem de acordes maiores às varandas,
em horas paradas
e pautas quase puras.


Na timidez, improvisei um grave,
sem o detalhe preciso da altura.

E nos soluços afinei a voz,
acomodei-me discretamente às cordas,

puxei a medo a linha do horizonte,

reajustei-a depois à tessitura.



Maria da Fonte

Imagem retirada da Internet 


sábado, 9 de maio de 2020







Não sei a que livros roubei

as âncoras   e os abraços, que barco eu desenhei

no orvalho do meu rosto e o que agarrei aos mastros.

 

Não sei que pilhagens fiz e onde ajustei o perigo,

em que margens atraquei, que palavras contornei,

que carga trouxe comigo.

 

Não sei se foram os ventos ou as correntes primeiro,

nem sei se o barco que fiz me deu cadastro sequer

de pirata ou marinheiro.

 






Maria da Fonte

Imagem retirada da Internet

Só pode ser um poema

Lanço ao mar o poema, sem nomear capitão,
sem mapa que amanhe as ondas
e as premissas da razão.

Largo-o em alto-mar, desenho-lhe a aflição.
Dou um bote a cada homem e o esboço de uma rota
 sem nenhuma convenção.


Maria da Fonte
Imagem da Internet