sábado, 9 de maio de 2020
domingo, 3 de maio de 2020
Mãe

Mãe, este desarticular de dedos
que me deixa de braços pendurados
e cálculos agarrados à garganta,
esta sensação de dor que mal descrevo,
este pavor tremendo, mãe, que tenho
de te deixar
as mãos sujas de medo.
Maria da Fonte
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020
Mulher é desdobrável.
É verdade, Adélia.
É verdade.
Hoje encontrei umas quantas
amachucadas em cabos de vassouras,
e, quando estiquei a mão
para as recolher,
elas repeliram o gesto.
Arriscavam o tiro certeiro.
Já tinham treinado a união de borboleta
entre a fábrica e o mercado,
o estendal e o canteiro.
Não era, Adélia. Não era protesto
(tu nunca estiveste enganada),
nem sequer falta de jeito.
É esta forma mansa que elas têm
(penso eu)
de aconchegar a razão junto ao peito
sem que ninguém dê por nada…
Ou de pensarem que assim
chegam mais depressa ao céu.
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020
Puxa-se o
lustro à forma,
cria-se um
jeito latente,
molda-se o
corpo de retas
e afina-se
cada corda
até ao ponto
estridente.
Faz-se um
herói outra vez,
com outros
ingredientes.
Uma
embalagem pequena
mais um
código de barras,
com um
gatilho nas mãos
e balas
presas nos dentes.
Maria da
Fonte
Imagem da
internet
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020
Na folha pálida
pouso as linhas largas
sem o rigor de tudo o que é suposto,
e de improviso deixo cair os traços,
como se fossem riscos em cascata
ou rugas soltas pendentes do teu rosto.
Depois, avó, entorno as tintas todas
na mancha branca que ainda me couber,
puxo o teu cheiro manso com as mãos,
procuro avidamente a tua voz
e abro uma frincha de luz
para te ver.
domingo, 19 de janeiro de 2020
Como uma pedra encalhada
Permite-me que eu me demore
em cada hora uma vida.
Que as palavras barricadas
entre vírgulas e gavetas
deixem a sombra crescer
como uma pedra encalhada
nas âmbulas de uma ampulheta.
Deixa-me ter a ilusão
de que posso seguir sem rumo
pela passagem estreita
de uma moldura fechada,
num fio que cai a prumo.
Maria Fonte
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