domingo, 3 de maio de 2020

Mãe




Mãe, este desarticular de dedos
que me deixa de braços pendurados
e cálculos agarrados à garganta,

esta sensação de dor que mal descrevo,


este pavor tremendo, mãe, que tenho
de te deixar
as mãos sujas de medo.

Maria da Fonte

sexta-feira, 24 de abril de 2020



Parecia-me tão pequeno o céu
na sombra asseada
do pavimento da pele.

E agora, nas paredes impermeáveis da casa
onde os olhos chegam de longe
e o corpo se coíbe,
eu quase me perco nele.

Maria da Fonte


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020



Mulher é desdobrável.
É verdade, Adélia.
É verdade.

Hoje encontrei umas quantas
amachucadas em cabos de vassouras,
e, quando estiquei a mão
para as recolher,
elas repeliram o gesto.

Arriscavam o tiro certeiro.
Já tinham treinado a união de borboleta
entre a fábrica e o mercado,
 o estendal e o canteiro.

Não era, Adélia. Não era protesto
(tu nunca estiveste enganada),
nem sequer falta de jeito.


É esta forma mansa que elas têm
(penso eu)
de aconchegar a razão junto ao peito
sem que ninguém dê por nada…

Ou de pensarem que assim
chegam mais depressa ao céu.


 Maria da Fonte


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020



Puxa-se o lustro à forma,
cria-se um jeito latente,
molda-se o corpo de retas
e afina-se cada corda
até ao ponto estridente.

Faz-se um herói outra vez,
com outros ingredientes.

Uma embalagem pequena
mais um código de barras,
com um gatilho nas mãos
e balas presas nos dentes.

Maria da Fonte
Imagem da internet



sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Na folha pálida
pouso as linhas largas
sem o rigor de tudo o que é suposto,
e de improviso deixo cair os traços,
como se fossem riscos em cascata
ou rugas soltas pendentes do teu rosto.

Depois, avó, entorno as tintas todas
na mancha branca que ainda me couber,
puxo o teu cheiro manso com as mãos,
procuro avidamente a tua voz
e abro uma frincha de luz
para te ver.

domingo, 19 de janeiro de 2020

Como uma pedra encalhada



Permite-me que eu me demore
em cada hora uma vida.
Que as palavras barricadas
entre vírgulas e gavetas
deixem a sombra crescer
como uma pedra encalhada
nas âmbulas de uma ampulheta.

Deixa-me ter a ilusão
de que posso seguir sem rumo
pela passagem estreita
de uma moldura fechada,
num fio que cai a prumo.

Maria Fonte

sábado, 14 de dezembro de 2019

Ponte da Barca


Na minha terra há santos populares
e serras em correria
que fazem lembrar peregrinações.

Poetas em parágrafos suspensos,
negociadores do tempo a retalho
e pássaros a copular sem cálculos e retóricas.


Na minha terra, as mulheres galgam
a artilharia de palavras mais despachadas que setas,
agitam as vírgulas como cabos
e redobram as vigílias dos profetas.


Porque, na minha terra, há mulheres redondas
como punhos e homens
que aproveitam a vertigem
para dar formas concretas aos sonhos.

Maria da Fonte