sábado, 22 de outubro de 2016

Deixa-me ser




Pensas-me virada do avesso
quando costuro o poema
e procuras nas linhas do meu corpo
o verso preso.

Alinhavas cada retalho de mim
como se eu fosse um caso perdido.
Tu
que no poema vives paredes-meias
comigo.

Maria da fonte
Imagem da internet

sábado, 15 de outubro de 2016

Rotina



Despejas um gemido na mesa.
Quantas manhãs cabem nos teus olhos?

Procuras nas mãos o rascunho do mundo,
os teus dedos trémulos peregrinam vertiginosamente a cartilha.
Arrancas da garganta lápis,
mas, por temeres rasuras,
aportas nos dentes medos.

Podias ser uma ilha.

Deixas cair os braços na direção da morte
E nem um traço.
As ruas arrastam-te com outros ao sol-posto,
e tu não saltas com medo de perder o equilíbrio das horas.

Depois de tudo, é sempre
inverno no teu rosto.

Maria da Fonte
Imagem: «FADESTINO»
Rosa Maria Duarte

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Identidade



Eu sou a porta
entreaberta
das paredes
onde habito
entre o que me morre
em mim
e o que quebra
o infinito

o recorte
do que sobra
entre um
e o outro lado
a precisão
dos sentidos
num ponto
já desfocado

o voo
de cada qual
na falta
de algum voar
onde a palavra
se demora
entre
o ir e o chegar

e é de porta
entreaberta
que eu amo
baixinho tudo
desde as vertigens
da alma
às sombras
rasas do mundo

Maria da Fonte
Imagem da Internet

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Enquanto espero por ti



Vieste tarde, eu esperava ao frio
sem sobretudo. Não vás embora,
não vás, fica tão grande o meu mundo.

Não digas que está calor nem
que não há nenhum vento. Garanto
que tenho frio. Repara, vê-me por dentro.

Ele passou, eu senti. Raspou-me
rente ao ouvido. Era uma seta, bem sei.
O resto tenho esquecido.


Não vás embora, não vás, nem grites
tanto assim.Tenho medo desta nuvem
que se estende atrás de mim.

Diz ao sol que não morra, faz um sorriso
no chão. Do resto, eu não me lembro,
se tantos anos já vão.

Finge que tens no teu ventre a lua
lá hospedada e deixa-me adormecer
nos teus braços enrolada.

E se o teu calor cobrir o meu corpo
nos teus braços, eu posso então partir.
Não chores os estilhaços.

Maria da Fonte

terça-feira, 14 de junho de 2016

Os olhos moram em todos os lugares



E cabe no teu gesto
de cimento
um não sei quê de medo
e de muro.

Para quem vem de longe,
as horas ficam
no teu gemido
raso a quase tudo.

As noites pintam-te o sono
a fundo negro.
O frio embala-te o corpo,
se ficares.


Os dias sulcam
Os trilhos do teu rosto.
Os olhos moram
em todos os lugares.

Maria da Fonte
Imagem da internet

domingo, 29 de maio de 2016

Até ao fio de tudo


Um livro
em cima da mesa
e uma frase afiada

as linhas
traçam-me o voo
que estendo na madrugada

o longe
nasce-me perto
é só disparar a fundo

seguir o alvo incerto
até ao fio de tudo

e depois
que se faz tarde
fico rente e permaneço

na linha que me separa
a mão daquilo que teço

Maria da Fonte

terça-feira, 3 de maio de 2016

Que haja tempo nos meus olhos


Fala-me do céu azul
onde pousas a cabeça

e da esfera dos teus olhos
onde me vejo suspensa.

O teu tronco enviesado
vou conhecendo de cor.

Há pássaros no teu olhar
e tudo em ti sugere

que o mundo fica mais leve,
ainda que bem maior.

E se o baloiçar dos teus ramos
me vai causando estranheza,

que haja tempo nos meus olhos
para amar a natureza.

Maria da Fonte
Imagem da Internet