sábado, 5 de março de 2016

Ponte de Lima



Neste lugar


Neste lugar,
onde o céu se agacha em cada rua
e o sol se desprende
pelos montes,
há telas
que se erguem como homens
e poetas
que se soltam como fontes.


Neste lugar,
onde o olhar sacode a história
e as palavras
fermentam nos umbrais,
há paredes pinceladas
de memórias
e lendas torneadas
nos beirais.


Neste lugar
onde torres tocam nuvens
e Deus ajusta,
incrédulo, cada olhar,
há mãos
que se estendem às janelas
e estrelas
que se deixam apanhar.

Neste lugar,
onde o mundo vem dormir
e o tempo
o envolve num abraço,
há um rio obstinado em não partir,
e a gente,
de partida,
abranda o passo.

Maria da Fonte

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Colem pedaço a pedaço


Visto palavra
a palavra,
vou mudando de estação.
Gasto a distância
das coisas
só com um lápis na mão.

Salpico nuvens
no céu,
ponho chuva
sobretudo.
Se houver água que me lave,
a vida cola-se a tudo.

Na mão
seguro estrelas,
deixo afogar
o olhar
e sigo pelas entrelinhas
sem pressa de me lavar.

Mas, na deriva
dos ventos,
a vida,
como um pião,
vai rodopiando à toa
e depois cai-me no chão.


Colem pedaço a pedaço,
como convirá,
decerto.
Não me lavei,
é verdade,
mas olhem que fiquei perto.

Maria da Fonte
Imagem da Internet

domingo, 22 de novembro de 2015

Abóbora- menina



APPACDM DE SETÚBAL

Empurro a noite para longe do meu quarto,
pouso o olhar no parapeito da janela,

invento uma abóbora-menina
a correr no meu jardim.
Corro com ela.

Chamo bem alto o nome não sei de quem,
tiro da gaveta um guache e um pincel.

Enquanto penso ou sonho, não sei bem,
semeio mais abóboras no papel.

Uma ao centro, virada para mim,
outra ao cimo, mais abaixo, mais além…

Tão coradas!
Tão redondas!
São, assim, tal e qual o ventre de minha mãe!


Mas eis que a porta se abre e tudo voa,
a folha cai no chão amarrotada
e o estrondo do meu sonho em vão ressoa.


E se a abóbora redondinha for quadrada?


Maria da Fonte

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

No meu bairro


No meu bairro
há uma rua sem saída
onde as palavras
fazem sempre ricochete.
Nas portas,
pintam formas esbatidas.
Nas janelas,
moldam memórias de gente.

O mundo do meu bairro
é só de fora,
desprende-se airosamente
dos sentidos.
E o tempo vai vertendo
hora a hora
sobre a pele dos meus dedos
ressequidos.

Se morro, no meu bairro,
ninguém vê,
porque tudo, no meu bairro,
faz sentido.
O mundo do meu bairro
é bem maior,
e o tempo do meu bairro,
mais comprido.

Maria da Fonte
Imagem da internet

quinta-feira, 30 de julho de 2015

A mão que te estendi

Levas tanta pressa nos olhos
e tanta ausência nos gestos.

Recusas soletrar as coisas a que pertences,
hipotecas aquilo que te dão.

E porque a noite chegou,
julgas saber o caminho de regresso.

Em que ângulo do olhar deixaste o coração?

Maria da Fonte

quinta-feira, 7 de maio de 2015

A uma das tantas tias que conheço.



Porque deixou a jeito o seu casaco
Do mais puro grife que há no mercado,
Olhei-o de viés, maravilhado.
Que medonho!
(Eu afagava a mancha do sovaco.)

Montanhas de graça, e ela ria
Vertiginosamente do pobrezinho.
Gesticulava, indignada, a outra tia.
(E eu escondia, irado, o colarinho.)

Tinha vinte anos, garanto. Que beleza!
Talvez fosse ela da tal porcelana
Que minha mãe sonhava em pôr na mesa.
(E eu que só queria amor e uma cabana.)

As calças repuxadas ao umbigo,
Nem vestígios de miolo na cintura.
Imaginei um banquete e um abrigo.
(E eu…que dentes! de tanta côdea dura.)

Ouvi, por certo, chamar-me seu criado,
Lábios carnudos e sons bem guturais.
Crescia em mim um frio tresloucado.
(E eu… tão pouca roupa, ou corpo a mais.)

Sem mais demora, estendi-me ali no chão,
Fiz-me criado em mesa de jantar.
Ela trincava a côdea do meu pão.
(E eu, a medo, sugava o caviar.)

Chamou-me possidónio, eu sorri,
Por não saber ao certo o que dizia.
Talvez fosse a ementa que trazia.
(E eu pensava no prato que comi)

Milho transgénico, não era. Ela que diga
Como era boa a côdea que lhe dei.
Já o caviar, ai tia de uma figa!
(Eu não morri, mas bem morto fiquei.)

Maria da Fonte

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Contornos


Entoas cantos
de um deus desarrumado.
Vais embalando
na solidão das horas.
E o céu remexe os dias que te habitam
como quem entra na casa onde moras.

A noite dorme secreta
nos teus passos.
A lua ao fundo,
suspensa na altura,
vai devolvendo à sombra do teu rasto
o mistério nas formas que procuras.

E onde o mundo acaba,
o céu começa.
Nada te prende ao chão
que tu seguras.
O circuito das coisas recomeça
entre o teu rosto e o espelho onde figuras.

Maria da Fonte
Imagem da Internet