Havia ainda um último fósforo
para acender as palavras
e abrir uma porta para o mundo.
Mas as leis sabem a pólvora,
as metáforas
explodem nas mãos
e os homens lançam por terra os dedos.
O Natal
chega depois de tudo.
Maria da fonte
São cogumelos abertos,
os beijos do meu amor.
Nascem em troncos de outono,
como nascem as formigas,
e, em dias de muita chuva,
abrigam o meu senhor.
Salteados como lâminas
nas margens do rio Tormes,
os beijos do meu amor,
livres, sem dono marcado,
viajam na minha boca
e na outra boca ao lado.
Quando eu nasci, as manhãs chegavam,
sem o estudo do mercado,
com as horas fermentadas
e sabor a feijão branco.
Quando eu nasci, a voz de minha mãe
subia a passo firme
pelas janelas
e o céu andava sempre pelos telhados.
Depois, chegaram os outros
e alguém se lembrou
de me dizer que a terra vacilava
e o sol nem se movia.
Foi então que eu, já tão morta de cansaço
e já tão desgovernada,
saí sozinha de casa
e caí na poesia.
Maria da Fonte
Faz-te de barro,
frágil como um jarro.
Cheia de medos
e angústias sem nome.
Contrai o peito,
arquiva os desaires,
impulsiona a dor até ao chão.
Com a palavra mais longa do
mercado,
carrega o verbo,
pontua a desgraça.
Se ainda houver
quem te não reconheça,
põe-te de cócaras.
E, num punhado azedo
de metáforas,
retoca a sombra
redonda dos teus dias.
Maria da Fonte
Imagem retirada da internet
Todas as tardes,
de sapatos
gastos,
descia a ladeira
a buzinar ao
vento.
E agachada
nas curvas de
um gato,
atirava as
pernas
e trepava o
tempo.
Nos ramos rijos
de arcos de
caça,
desenhava as horas
e esticava a
mão.
Dizia-as
maduras
como ampulhetas
ou tambor de
férias,
sem cair ao
chão.
Minha mãe ouvia
e simulava a
queda
enquanto estendia
a colher da
sopa.
Eu balbuciava
palavras sem margens
que as horas
cabiam…
E abria a boca.
Maria da Fonte
Pois então não esperem de mim
grande ciência.
Em abono da verdade, este meu
compromisso
com a vida,
tantas vezes permeável,
Tantas vezes fugaz,
fez de mim soldado
numa guerra que
sabia
de antemão
perdida.
Se é natural
que os dias me escorreguem
das mãos sem o apertar do gatilho?
Talvez.
Como os beijos e as flores,
os moldes e os lugares,
o copo e o vinho.
Deixem-me, por isso, brindar a
este tempo
emprestado, que as taxas de juro
andam pela hora da morte,
e eu quero acreditar
que estou longe,
muito longe,
do destino.
Maria da Fonte
Talvez a mão esquerda
vá sem jeito
e a direita não seja mais o que
era.
Talvez uma estrela mais a norte,
ou a norte a luz que entendas seja
rara.
Talvez o declive do teu braço
seja o acaso ou só delicadeza,
e o tempo que medeia cada traço
seja a brisa que te leva ou te
separa.
Talvez o engenho, meu amigo,
esteja na arte da saber arredondar
as formas planas do teu dia
no rosto limpo
da pedra lapidar.
Maria da Fonte