quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020



Mulher é desdobrável.
É verdade, Adélia.
É verdade.

Hoje encontrei umas quantas
amachucadas em cabos de vassouras,
e, quando estiquei a mão
para as recolher,
elas repeliram o gesto.

Arriscavam o tiro certeiro.
Já tinham treinado a união de borboleta
entre a fábrica e o mercado,
 o estendal e o canteiro.

Não era, Adélia. Não era protesto
(tu nunca estiveste enganada),
nem sequer falta de jeito.


É esta forma mansa que elas têm
(penso eu)
de aconchegar a razão junto ao peito
sem que ninguém dê por nada…

Ou de pensarem que assim
chegam mais depressa ao céu.


 Maria da Fonte


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020



Puxa-se o lustro à forma,
cria-se um jeito latente,
molda-se o corpo de retas
e afina-se cada corda
até ao ponto estridente.

Faz-se um herói outra vez,
com outros ingredientes.

Uma embalagem pequena
mais um código de barras,
com um gatilho nas mãos
e balas presas nos dentes.

Maria da Fonte
Imagem da internet



sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Na folha pálida
pouso as linhas largas
sem o rigor de tudo o que é suposto,
e de improviso deixo cair os traços,
como se fossem riscos em cascata
ou rugas soltas pendentes do teu rosto.

Depois, avó, entorno as tintas todas
na mancha branca que ainda me couber,
puxo o teu cheiro manso com as mãos,
procuro avidamente a tua voz
e abro uma frincha de luz
para te ver.

domingo, 19 de janeiro de 2020

Como uma pedra encalhada



Permite-me que eu me demore
em cada hora uma vida.
Que as palavras barricadas
entre vírgulas e gavetas
deixem a sombra crescer
como uma pedra encalhada
nas âmbulas de uma ampulheta.

Deixa-me ter a ilusão
de que posso seguir sem rumo
pela passagem estreita
de uma moldura fechada,
num fio que cai a prumo.

Maria Fonte

sábado, 14 de dezembro de 2019

Ponte da Barca


Na minha terra há santos populares
e serras em correria
que fazem lembrar peregrinações.

Poetas em parágrafos suspensos,
negociadores do tempo a retalho
e pássaros a copular sem cálculos e retóricas.


Na minha terra, as mulheres galgam
a artilharia de palavras mais despachadas que setas,
agitam as vírgulas como cabos
e redobram as vigílias dos profetas.


Porque, na minha terra, há mulheres redondas
como punhos e homens
que aproveitam a vertigem
para dar formas concretas aos sonhos.

Maria da Fonte








sexta-feira, 29 de novembro de 2019

E pelo olhar de viés Que me lançou de repente, Julguei-o, mais uma vez, Agarrado a uma corrente.  Um terço , tinha a certeza, E a oração no começo. Ele, com toda a franqueza, “Um terço, ficou um terço”.  Já no segundo mistério, Dizia-lhe eu entretanto. Ele pesaroso e sério, “Não sei como encolheu tanto”.  E gritava, metia dó. “Se não voltar a crescer, Eu posso então morrer E que vire tudo pó

Pensei por breves instantes
ser um velho em oração,
em prantos pouco elegantes
no patamar do portão.


E pelo olhar de viés
que me lançou de repente,
julguei-o, mais uma vez,
agarrado a uma corrente.

Um terço , tinha a certeza,
e a oração no começo.
Ele, com toda a franqueza,
“Um terço, ficou um terço”.

Já no segundo mistério,
dizia-lhe eu entretanto.
Ele pesaroso e sério,
“Não sei como encolheu tanto”.




Velho Triste No Portão da Eternidade,Vincent Van Gogh
Maria da Fonte


domingo, 3 de novembro de 2019

Meu amor

Nesta noite, meu amor,
nem as palavras em brasa
chegarão.
Quero as chamas
a rasar os dedos,
os olhos a trepar faúlhas,
como montanhas a galgar o chão.

Nesta noite, meu amor,
faz-te frondoso
na labareda arisca onde me rendo.


Se isto for morte, meu amor,
não me repreendas.

Se isto for morte, meu amor,
eu não me emendo.