domingo, 17 de novembro de 2013

XVIII Concurso APPACDM de Setúbal

Palavras sem alma



São tantas as palavras que me atiras: decretos
despachos, portarias…Pesam tanto nas pernas arqueadas,
talvez por serem vagas, tão vazias.
Nos passeios estreitos que me levam, não cabem
palavras iguais. Os passeios são de pedras genuínas;
as palavras, penhascos surreais .
Porque trazem o peso do universo, são enormes,
mais pesadas que o meu chão. Sufocam astutamente
o meu silêncio. São imensas, monstruosas, e eu não.

Rasga as folhas escritas, não me esqueças nas entrelinhas
das frases espectrais. De que servem as palavras sem entranhas,
tão vazias, tão enfermas, tão banais?

Melhor o teu olhar, a tua mão, e o caminho
pode ser o que quiser, basta que caminhes a meu lado,
que tu sejas e que me deixes ser.
E chegados ao leito do rio que nos leva, onde tudo
o que foi já não é mais, tu davas-me um pincel
e eu pintava as sombras das almas iguais.

Menção Honrosa
Maria da Fonte


segunda-feira, 28 de outubro de 2013


«Los hombres vivimos juntos,
pero cada uno se muere solo
y la muerte es la suprema soledad.»
Miguel de Unamuno

Atropelas os corpos
Como se quisesses encarcerar as almas.
Desconheces que a porta de qualquer morada
É revestida de um rosto blindado.
Convences-te de que entre o átrio e o templo
Há o espaço de uma corrente de ar.
Aguardas impacientemente a ordem.
O santuário fica, porém, à distância de uma vida.
Enquanto isso, sonhas-te Deus em altares profanados.

Até onde te levam os braços de Menorá?
Onde te deixam os teus?

Maria da Fonte
Imagem retirada da internet

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Coisas do quotidiano



O dia fechou a porta simplesmente no trinco, a noite entrou e delineou nas paredes os contornos indefinidos da vida. Ao fundo os sonhos encapelados deixavam tocar as estrelas e fecundar a lua.
Só a névoa leitosa começava a trepar mansamente a encosta e os dias iam-se afogando paulatinamente.
No lusco-fusco da casa, ouvia-se a voz soluçante e áspera do destino.
Desejou arduamente elevar-se no espaço, fugir para além do cenário opressivo das imensas cordilheiras de silêncio que a cercavam, subir ao topo mais alto da vida e sentir
o ar cristalino e cortante da sorte.

Maria da Fonte

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Revés




Os livros não gostavam do seu quarto,
talvez temessem as águas turvas das linhas da mão
ou os trilhos calejados dos montes.
Nunca partilhara o travesseiro de palha com as letras.
Sabia que o pai não suportava o feixe de pernas dos irmãos
e as letras também tinham pernas.

Pudesse ao menos dividir o silêncio
com uma dezena de palavras e erguer na piedosa noite
a sua aldeia, voar por entre as frinchas dos lençóis,
estender o desejo nas nuvens e dormitar ao lado
das estrelas!

Acordava, porém, de madrugada com o bafo
aterrador da noite.
As paredes do sonho demoliam,
as palavras morriam uma a uma,
as lágrimas engoliam a aldeia
e as pálpebras abafavam a dor.



Caía de rompante nos lençóis e voltava a levantar
a primeira pedra.
Pediu um passaporte para o céu,
nunca lhe trouxeram o visto.
Olhava obstinado a fronteira da sorte
e perguntava-se:
como se abrem as portas ao sonho?


Maria da Fonte
Imagem retirada da internet

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Para lá dos muros



Se quiseres saber onde moro,
Não tacteies o corpo dissoluto das pedras,
Não devasses a paciência do olhar na nébula geográfica
Das cidades imponentes,
Procura-me antes nas margens do poema,
Onde as palavras ditam a desordem
Dos subúrbios e as ideias mendigam um pedaço de paz.

Maria da Fonte

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Travessia



Subo e desço a montanha
Pelos trilhos do incerto.
No topo fico tamanha,
Só no sopé eu desperto.

Neste subir e descer
A encosta irregular,
Vejo e deixo de ver
Os trilhos que hei de pisar.

Cerro os olhos, pouso a mão
Nos ombros largos do céu.
Resvalo, caio no chão,
Tudo o que tinha partiu.

Grito, maldigo o destino
E a montanha orbicular.
Deixou-me chegar ao cimo
Para depois me empurrar.

Agora no chão tão frio,
Espero que chegue Caronte,
Não para passar o rio,
Mas para subir ao monte.

Maria da Fonte



sábado, 18 de maio de 2013

Ovelha perdida



Pedi a Deus, trouxe-me,
dispersos, laivos de luz, pedaços
de esperança. Um vendaval, eu ainda criança;
uma chuva intensa, os sonhos imersos.
Chamei por Deus, já longe de mim.
Sentei-me à mesa, quis-me confessar.
Ele calado, eu a protestar. Nada mudou.
Não soube ao que vim.
Bati a porta do céu e saí. Caí nas nuvens,
só depois no chão. Deus não me empurrou,
eu juro que não,
fui eu que, zangada, a porta bati.
Entrei na cidade, uma nuvem de pó. As casas sem blush,
as ruas sem luz; os olhos no chão,
os rostos na cruz. Deus longe de mim,
eu ali tão só.

Procurei-o em tudo, em nada o vi. Sentei-me no chão,
à espera, a olhar,
mas ele não veio, eu fiquei ali.
Talvez o encontre quando me encontrar.

Né Fonte
Imagem retirada da internet