segunda-feira, 17 de julho de 2023

 




Às vezes, com medo de deixar cair o poema

fora do mapa,

cerro os dentes,

levo-o até casa na boca.  

 

E enquanto ele se escoa lentamente

junto à porta de entrada,

abre ecos pelos degraus

e ganha formas ao fundo,

eu sonho em arrastá-lo

como um gato até

ao resto do mundo.


Maria Da Fonte

sexta-feira, 2 de junho de 2023

 

Lembra-te dos soldados de Esparta

 e deixa-te ficar na posição de tiro.

 

Se alguém te apontar, por ironia,

um santuário, ilumina-lhe a entrada.

Talvez ele queira saber do resto do exército

e dos campos de treino.

 

Fala-lhe do cerrar de fileiras,

das tintas a óleo, da armação de madeira, 

do pedaço de lona.

 

Depois. Só depois, do espólio. 

Maria da Fonte 

segunda-feira, 1 de maio de 2023

 


Naquele tempo,

a noite tinha por hábito

dar-me um beijo

que eu desenhava um pouco acima da sua voz rouca.

 

Foi nos seus braços abertos que aprendi

a organizar o tráfego das sílabas

e a técnica de acender

os sonhos com a boca.

 

Maria da Fonte


quarta-feira, 8 de março de 2023

 



Fascina-me a ideia de explodir
na boca dos poetas.
Correr a cortina
e titubear, estrada fora, o alfabeto.
 
Não fossem as tardes chuvosas,
a cumplicidade dos advérbios de lugar
e este dia
confiscado por decreto.
 
Maria da Fonte
 
 

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

 




A liberdade, mãe, de que me falas

é esta bola de creme

que eu tirei da gaveta,

com recheio e arestas

como o grau de uma potência

ou a fórmula secreta

de qualquer equação.

Sou livre de a comer,

que me custou o cansaço

de quatro lombas de estrada,

uma escada em caracol,

três palmos de sobressaltos

e os cálculos do corrimão.

 

Imagina, mãe, agora

que há valores e variáveis

na minha definição.

Quem faça contas pelos dedos,

quem saiba as contas de cor,

quem pense que a liberdade

é ter um bolo na mão.

 

 Maria da Fonte

 


segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

 

Não posso prender o tempo às linhas da minha mão,

mas posso acordar o vento,

dobrar a linha da sorte, personalizar o mastro

e moldar um barco no chão.

 

Não posso colher o mar na geografia dos dedos,

Mas posso cavar um poço,

guardar a água da chuva,

largar o barco à deriva

e repensar os meus medos.

 

Maria da Fonte




sexta-feira, 18 de novembro de 2022

 


Ontem

inventei o espanto

quando, num jogo de palavras,

me falavas dos meninos que criaram a fome

para maçar a gente de família,

com pia de batismo,

nome e sobrenome.


Ontem

estava sem o tempo contado

e uns trocos no bolso

para comprar cerveja.

Por isso, poeta,

me embebedei de toda a injustiça do mundo.

 

Ontem

afiei o lápis desnutrido

como lâmina

e cortei os dedos,

um a um,

a quem, por vício ou desgarrada,

mutilou a mulher

que podia ter sido

minha mãe.

 

Agora,

enquanto a tarde me morre na folha

e esta gente se empilha

num fora de jogo,

eu imagino-me

empoleirada nas cores de meu país

a recuperar a posse da bola.

Maria da fonte