Nua de peito
porque toda eu sou desnorte
para desolação dos justos.
Vergar-me para varrer do corpo este pecado?
Só se for para alongar
o lampejar lascivo
do decote.
Maria da Fonte
Ficar em bicos de pés, não posso.
Cansa-me esta terrível dor nos ossos.
Nem sequer levantar a cabeça
para ver qual de vós é maior.
Mas nem tudo se
perdeu, amigos.
Perdoem-me a conveniência.
Aproveito a vossa sombra
para desenrolar o corpo,
amar as pedras,
tirar uma sesta.
O resto é sobrevivência.
Maria da Fonte
Imagem retirada da internet
Ainda assim, alinhas os pássaros
por trás do destino.
Emendas o friso, pontilhas as asas
em curtos prefácios,
soletras o fôlego discreto dos ninhos.
Ainda assim, evocas as ondas
sem saber ao certo a leveza dos
traços.
Hidratas as rugas, retocas as
rotas
e vestes o rosto, molhado,
de barcos.
ajustas as sombras
à escala tonal.
Tivesses tu tempo,
combinavas as cores
e davas à tela um toque final.
Nos intervalos do vento,
pressiona mais a mão.
Move o lápis devagar por entre
pontos e linhas,
numa simetria básica,
a sugerir rotação.
Assim de braços abertos,
fica o homem e o subalterno.
O esboço a deslizar
pela rotina do traço,
numa espécie de contraste
entre o céu e o inferno.