sexta-feira, 13 de novembro de 2020

 


Que a tarde foi isolada no perímetro da sombra,

declara-se nas varandas

 luto em primeira mão.

 

Da torre, um relógio atónito

recolhe os dados clínicos,

atualiza o histórico e mede-lhe a pulsação.

 

O quadro é reservado,

batimentos arrastados. Bradicardia, profere.

 

Do outro lado da rua, velhos estáticos como barras

(um metro e meio os sucede)

a fazer lembrar capelas

 

ou gráficos 

confinados às molduras de parede.


domingo, 8 de novembro de 2020

 


Como se enganam os senhores da alta-costura

quando ajustam a gente à etiqueta

e penhoram as ancas no tecido.

 

Chegam sempre de madrugada neste registo.

Trazem no peito a praça e um cabide,

como se fossem poetas

e as mulheres redondilhas

sem lugar a pernas flácidas.

 

Os senhores de alta-costura

engomam versos em série

e gastam as  horas  nisto.

 

Maria da Fonte

Fernando Botero

 

 

terça-feira, 6 de outubro de 2020

 


Depois de tudo,

servi-me a data

com pompa e circunstância.

 

E ajudai-me a diluir este remorso

de ter esquecido o lugar e a hora exata.

 

Não soube amar os gestos nas fachadas.

Valho-me de retalhos de nuvens,

 supostamente incauta.

 

Nos arredores de mim,

que caia a noite como uma nódoa solta.

 

Maria da Fonte

Imagem retirada da internet

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

 


Se o coração soubesse

que o poema me deixa sem chão,

que os olhos me fogem

e as horas rebolam

sem fauna ou flora.

 

Se o coração soubesse

que os dias me queimam

nas costuras das mãos

e a pele desprende

dos dedos de corda.

 

Se o coração soubesse,

parava-me agora.

 

Maria da Fonte

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

 

Dê palpites sobre a linha,

o padrão e a textura,

o clima, se quiser.

 

Até à última prova,

proteste o ponto corrido,

o decote do vestido

e o forro, quando o tiver.

 

Ponha defeitos em tudo,

a cambraia, a seda pura,

a viscose mal cosida

e o fio curto a prender.

 

Trace o tamanho do pano,

a roda larga ao vestido,

o rodopio do vento

sem uma fibra sequer.

 

Que, ainda que não permita,

há quem num pano de pó

abafe por completo

as pernas de uma mulher.


Maria da Fonte

Imagem retirada da internet

 

 

 

domingo, 30 de agosto de 2020

 



Ainda que o teorema determine

que o cálculo tem por base

 dois princípios cruciais na operação,

há olhos que não encontram a área de uma figura

e cores que se incendeiam

e embatem como facas

nas falhas do coração.

 

Maria da Fonte

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

 


Palavras em linha reta

numa estrutura bem simples,

com materiais sustentáveis

e ampla ventilação.

 

Quatro pilares tracejados

a deixar cortar o vento

e uma janela entreaberta

para abreviar o medo

que atravessar a razão.

 

Uma porta desarmada

na moldura habitual

e uma varanda que beba

o disparo de um coração.

 

Fica o projeto em conta

e muito funcional.

 

Maria da Fonte