terça-feira, 3 de maio de 2016

Que haja tempo nos meus olhos


Fala-me do céu azul
onde pousas a cabeça

e da esfera dos teus olhos
onde me vejo suspensa.

O teu tronco enviesado
vou conhecendo de cor.

Há pássaros no teu olhar
e tudo em ti sugere

que o mundo fica mais leve,
ainda que bem maior.

E se o baloiçar dos teus ramos
me vai causando estranheza,

que haja tempo nos meus olhos
para amar a natureza.

Maria da Fonte
Imagem da Internet

segunda-feira, 25 de abril de 2016


Por vezes fico a olhar o mundo,
perdida nos meandros interiores.

Cinzelo ideias rasgadas, as palavras crescem
e o sonho fica à distância de um grito.

Não importa se só a voz pode transpor silêncios,
Se aos pés não lhes é permitido descolar das pedras.

Há sempre brechas na noite por onde se esgueiram
réplicas, basta que ao cimo de nós a lua cerque os corações famintos
e sobre eles deposite retalhos de luz.

Maria da Fonte
Cartoon da Internet

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Doutor


Doutor é aquilo que sou.
Sou doutor e pouco mais,
O nome que alguém me deu
E as impressões digitais.
Acima ponha doutor,
Ao meio ponha outra vez.
Encolha mais, por favor,
Os nomes de quem me fez.
Já me pediu o retrato,
O dedo da minha mão.
Agora, tanto aparato!
Sem doutor, não há cartão!
Não grite, não vale a pena,
Pois…que doutor cabe bem.
Faça a letra mais pequena
E corte o nome da mãe.
Agora já está melhor,
Mas se fossem garrafais...
Alguns não sabem de cor.
Corte o nome dos dois pais.
Já posso sair em paz,
Mas olhem que custou tanto.
Alto! pois volto atrás,
Deixei uma linha em branco.
Fale mais baixo, mulher,
Não disse, porque não vi.
Doutor não é de quem quer,
Ponha mais doutor aqui.

Maria da Fonte
Imagem retirada da Internet


segunda-feira, 21 de março de 2016

Reentrâncias



Traço o mapa
nas nervuras,
limpo os pontos cardeais.

Ao limbo
de cada folha,
acrescento um pouco mais.

Tiro a redoma das coisas,
sigo qualquer
reentrância.

Não morro,
vou dormitando
na moldura da distância.

Seguro a vida nos dedos,
volteio os sonhos
na mão.

Os dias
nascem bem perto
da minha imaginação.


Maria da Fonte







sábado, 5 de março de 2016

Ponte de Lima



Neste lugar


Neste lugar,
onde o céu se agacha em cada rua
e o sol se desprende
pelos montes,
há telas
que se erguem como homens
e poetas
que se soltam como fontes.


Neste lugar,
onde o olhar sacode a história
e as palavras
fermentam nos umbrais,
há paredes pinceladas
de memórias
e lendas torneadas
nos beirais.


Neste lugar
onde torres tocam nuvens
e Deus ajusta,
incrédulo, cada olhar,
há mãos
que se estendem às janelas
e estrelas
que se deixam apanhar.

Neste lugar,
onde o mundo vem dormir
e o tempo
o envolve num abraço,
há um rio obstinado em não partir,
e a gente,
de partida,
abranda o passo.

Maria da Fonte

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Colem pedaço a pedaço


Visto palavra
a palavra,
vou mudando de estação.
Gasto a distância
das coisas
só com um lápis na mão.

Salpico nuvens
no céu,
ponho chuva
sobretudo.
Se houver água que me lave,
a vida cola-se a tudo.

Na mão
seguro estrelas,
deixo afogar
o olhar
e sigo pelas entrelinhas
sem pressa de me lavar.

Mas, na deriva
dos ventos,
a vida,
como um pião,
vai rodopiando à toa
e depois cai-me no chão.


Colem pedaço a pedaço,
como convirá,
decerto.
Não me lavei,
é verdade,
mas olhem que fiquei perto.

Maria da Fonte
Imagem da Internet

domingo, 22 de novembro de 2015

Abóbora- menina



APPACDM DE SETÚBAL

Empurro a noite para longe do meu quarto,
pouso o olhar no parapeito da janela,

invento uma abóbora-menina
a correr no meu jardim.
Corro com ela.

Chamo bem alto o nome não sei de quem,
tiro da gaveta um guache e um pincel.

Enquanto penso ou sonho, não sei bem,
semeio mais abóboras no papel.

Uma ao centro, virada para mim,
outra ao cimo, mais abaixo, mais além…

Tão coradas!
Tão redondas!
São, assim, tal e qual o ventre de minha mãe!


Mas eis que a porta se abre e tudo voa,
a folha cai no chão amarrotada
e o estrondo do meu sonho em vão ressoa.


E se a abóbora redondinha for quadrada?


Maria da Fonte