
Os poemas gostavam de voltar.
Pousavam no cume das ideias e desciam
vagarosamente ao sopé.
Depois, esporadicamente, paravam;
temperavam as entrelinhas com o sabor das terras,
deixavam pelos caminhos um rasto adocicado a fantasia.
Eu ficava ali agachada nas pedras,
à espera de um pedaço de ilusão.
Havia fome no tempo dos meus pais.
Nas entranhas da serra, os nichos de palavras
aninhavam-se como pedintes;
esgravatavam o chão num gesto martelado e corriqueiro.
E eu ficava ali à espera de ver nascer
do ventre da terra um poema.
Queria tanto que a terra fosse redonda como a minha mãe.
Só então levantava a cabeça em profundo desalento.
Olhava o pico das nuvens e sonhava
que a minha aldeia era um livro.
Minha mãe puxava-me pela mão.
Os poemas ficavam para lá da vida
e o horizonte era o lado negro da sorte.
Maria da Fonte
Imagem retirada da Internet
Há sempre um poema que se escapa da memória...
ResponderEliminarMuito belo!
O meu abraço
Sónia
Um poema muito especial. É muito importante deixar as crianças viajarem em seus mundos, sonharem acordadas. Arrancá-las disso é podá-las do que há de mais precioso na infância.
ResponderEliminarComo me revi nestas palavras...
ResponderEliminarBelo.
Beijinho
Não há poesia na fome, na pobreza e noutros males que nos assolam de vez em quando.
ResponderEliminarMas há poesia em tudo que está à sua volta quando observadas por um poeta. Sim, porque tu sabes olhar. Depois, é saber passar para as palavras, como tu fazes e bem...
Resumindo, fizeste mais um excelente poema.
Um beijo, minha querida amiga.
Belo poetar amiga,estarei seguindo você,Bom fim de Semana,abraços.
ResponderEliminarO esgrimir do real com a poesia...
ResponderEliminarMuito bem!
Beijo :)