quarta-feira, 28 de agosto de 2024

 

Quis,

antes de partir,

 que a tela despisse

todo o seu cansaço

e desse um novo rumo

ao rosto despenhado.

 

Alargou as lágrimas

com um traço largo,

pôs árvores

nas margens e,

 

sem nenhum recado,

levantou o vento,

disse adeus aos netos

e desceu de barco

para qualquer lado.


 Maria da Fonte

quinta-feira, 15 de agosto de 2024

 


Quando a erva daninha me povoa

o pensamento, eu, por ter a folha em branco

e por me querer a cultivar poemas de riso

escancarado,

carrego as minhas inseguranças até ao gesticular

do meu antigo

professor.

 

Depois, fixo o olhar no tal ecossistema.

Procuro os recursos naturais,

como quem colhe as palavras

mais redondas

e segue o roteiro dos sonhos

no regresso à vida.

 

Vejo, então, a utilidade da planta

no deambular do seu indicador.


Maria da Fonte

quarta-feira, 14 de agosto de 2024






 

O teu horizonte era uma mesa a médio prazo

onde sempre te sobrava coração.

Mas a ternura anoiteceu

nos teus lábios,

e as palavras

 definharam ao redor

das tuas asas.


Deixou de haver lugar na tua aragem.


Talvez o teu ângulo do olhar

te tenha abreviado a amplidão.

Maria da Fonte




terça-feira, 9 de julho de 2024

 



Atravessei contigo o fim da noite,

limpei das nuvens

o pensamento baço.

E, para que a sombra te não matasse

os dias,

resgatei-te o sopro

e segurei-te o braço.


 Maria da Fonte

sábado, 2 de março de 2024

 



Quando o céu era uma brecha

e os pássaros com fita métrica

traçavam na arquitetura

um chilrear subtil,

havia voos clandestinos

agarrados à garganta,

mãos inundadas de vento

 e uma folga nos dedos

para encomendar abril.


Maria da Fonte

Imagem retirada da Internet 

sábado, 23 de dezembro de 2023

 



Já se veem os reis magos

a louvar o salvador

na manjedoura de pedra

sem guizo nem cobertor.

 

Trazem orações nos lábios,

presentes para ofertar.

Gaspar, um explosivo;

Melchior, a bomba esponja

e Baltazar talvez traga

a bomba nuclear.

 

As ofertas deixam tudo

muito bem iluminado.

Vê-se a Maria a chorar,

o menino encolhido

e José envergonhado.

 

Se houvesse lá um pinheiro,

que não o há, por sinal,

eu pendurava-lhe as bombas,

punha a minha playlist,

chamava o coro dos anjos

e celebrava o Natal.

 

Maria da Fonte

domingo, 8 de outubro de 2023

 



Eram oito em ponto da manhã,

eu circundava um autocarro na central.

O jardineiro de minha mãe (belo galã!)

rumava sem aviso à capital.

 

Tinha-me dito um dia, aborrecido,

ao dividir seis dentes de leão,

que já os tinha contado e dividido

oitenta vezes pelos dedos da mão.

 

 

Não suportava as contas matinais

que minha mãe, ao rubro, lhe pedia.

Que era melhor ciências naturais,

depois, e só depois, biologia.

 

Vi de soslaio fugir a empregada

aos encontrões e gritos entre a gente.

Que era formada e mais do que formada,

que minha tia a corrigia sempre.

 

 

Acutilada, também eu relembrei

aqueles longos anos sem aumento,

o pão de ló roubado a minha mãe

e o acesso direto ao parlamento.

 

Impaciente, comprei o meu bilhete.

Imaginei os dois em estado bruto.

Eu alojado num qualquer palacete,

eles a ler num qualquer viaduto.

 

 

E já com tiques altivos do poder,

lá fomos nós então de boa fé.

Eu estendia o contrato para ler,

e encobria ao de leve o rodapé.


Maria da Fonte