segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Sem amanhã

Olhar o céu,
Sonhar-te o infinito.
Pousar no chão,
Ver-te nuvem de pó.
Saber-te as pontas
da carne, do mito,
De um mesmo fio
E de um mesmo nó.



Atravessar quem és,
Saber-te em mim.
Calar em nós
Os gestos da utopia.
Viver de amor,
Morrer de amor assim.
Só por amor,
Um dia após um dia.

Maria da Fonte
Imagem retirada da internet

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Amigos, hoje apeteceu-me rir de mim.


Num encontro de talentos,
Lá para os lados da Terra,
Sopravam fortes os ventos,
Como quem vive uma guerra.

Aquele diz ser cantor,
Este poeta que encanta.
Um porque fala de amor,
Outro porque tem garganta.


O primeiro, furioso,
Pensando ser enganado,
Mandou o outro, por gozo,
Ir cantar para outro lado.


O segundo respondeu
Àquela provocação.
-Aqui o mestre sou eu,
Tu não passas de um pavão.


E nisto, braços no ar,
Gente assustada a correr.
Um que não sabe cantar,
Outro não sabe escrever.

A vergonha não importa,
A gente estava dispersa.
Já os dois fora da porta,
Continuava a conversa.

-Eu sou porque assim o quis.
Dizia sem desmentir.
Uns torciam o nariz,
Outros partiam-se a rir.


-Eu nem preciso de ensaio,
Eu tenho vocação certa.
Uns olhavam de soslaio,
Os outros, de boca aberta.

Sai da betesga um amigo
Com cara de ter também
o ego preso ao umbigo,
talento como ninguém.


Agora, três são de mais,
Não há gente que resista.
Há mais arte que pardais,
Há menos homem que artista.


Já que assim é, também eu
Quis mostrar de uma empreitada
Que a arte também me deu
O dom de não saber nada.

Maria da Fonte
Pintura: João Cristino da Silva

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013


Uma noite sem portas, sem janelas,
Erguida de silêncio e pouco mais;
Entre as fendas das coisas pequenas
E as fragas viscosas do cais.

O gemido sufocante de um rio,
Uma lua desgrenhada no leito,
A leveza de um corpo esguio
Sobre o sopro de um dia desfeito.

E ao cimo das nuvens, estrelas,
Nem sempre tocáveis do chão.
Uns já nasceram sem braços,
Outro não estendem a mão.



Maria da Fonte
Imagem retirada da Internet

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Recados a minha mãe

Recados a Minha Mãe

Deram-te uma folha em branco e um lápis
da cor do céu, uma vida transparente
que o teu olhar coloriu.
Primeiro, uma casa grande, onde
pudesses sonhar. Depois,
um berço dourado e alguém
a quem embalar.
Era para ser um anjo aconchegado
nos braços, mas, do chão até ao céu,
alguém te trocou os passos.
E tu ficaste tão triste. Choraste, eu sei,
é assim. Mas da rudeza das pedras
pode fazer-se cetim.

Pintaste outro caminho, mais longo,
muito mais largo, e lá seguimos os dois
pela vida, lado a lado.

Mãe, só tu me sabes pintar
assim tão perto do céu.
Eu digo que sou um anjo,
tu pedes que seja eu.

Maria da Fonte

domingo, 17 de novembro de 2013

XVIII Concurso APPACDM de Setúbal

Palavras sem alma



São tantas as palavras que me atiras: decretos
despachos, portarias…Pesam tanto nas pernas arqueadas,
talvez por serem vagas, tão vazias.
Nos passeios estreitos que me levam, não cabem
palavras iguais. Os passeios são de pedras genuínas;
as palavras, penhascos surreais .
Porque trazem o peso do universo, são enormes,
mais pesadas que o meu chão. Sufocam astutamente
o meu silêncio. São imensas, monstruosas, e eu não.

Rasga as folhas escritas, não me esqueças nas entrelinhas
das frases espectrais. De que servem as palavras sem entranhas,
tão vazias, tão enfermas, tão banais?

Melhor o teu olhar, a tua mão, e o caminho
pode ser o que quiser, basta que caminhes a meu lado,
que tu sejas e que me deixes ser.
E chegados ao leito do rio que nos leva, onde tudo
o que foi já não é mais, tu davas-me um pincel
e eu pintava as sombras das almas iguais.

Menção Honrosa
Maria da Fonte


segunda-feira, 28 de outubro de 2013


«Los hombres vivimos juntos,
pero cada uno se muere solo
y la muerte es la suprema soledad.»
Miguel de Unamuno

Atropelas os corpos
Como se quisesses encarcerar as almas.
Desconheces que a porta de qualquer morada
É revestida de um rosto blindado.
Convences-te de que entre o átrio e o templo
Há o espaço de uma corrente de ar.
Aguardas impacientemente a ordem.
O santuário fica, porém, à distância de uma vida.
Enquanto isso, sonhas-te Deus em altares profanados.

Até onde te levam os braços de Menorá?
Onde te deixam os teus?

Maria da Fonte
Imagem retirada da internet

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Coisas do quotidiano



O dia fechou a porta simplesmente no trinco, a noite entrou e delineou nas paredes os contornos indefinidos da vida. Ao fundo os sonhos encapelados deixavam tocar as estrelas e fecundar a lua.
Só a névoa leitosa começava a trepar mansamente a encosta e os dias iam-se afogando paulatinamente.
No lusco-fusco da casa, ouvia-se a voz soluçante e áspera do destino.
Desejou arduamente elevar-se no espaço, fugir para além do cenário opressivo das imensas cordilheiras de silêncio que a cercavam, subir ao topo mais alto da vida e sentir
o ar cristalino e cortante da sorte.

Maria da Fonte