segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Renovação



(...)
Mas a quem interessaria tão trivial episódio? Agora, visto pela fenda do tempo, a anos de distância, até ela ria copiosamente cada vez que a brisa quente da tarde lhe servia mais uma lembrança. Tinha que as gravar na folha que depositara no colo. Era um compromisso que havia assumido e ela não era mulher de faltar às suas obrigações. Mas um romance qualquer, não. Não suportava os reflexos do rosa cálido que todas as histórias de amor envergavam como se fossem vestidos de verdade. Ela sabia que no amor todas as cores coabitavam, cada uma tinha o seu tempo de brilhar. Essa coisa de o rosa se sobrepor anos a fio era muito discutível. Recusava-se a falar do seu amor à sombra de um raio de ilusão tão ofuscante e tão apaixonado. E eu, caríssimo leitor, sem o querer desiludir, não é de facto essa a minha pretensão, chego a dar comigo a acenar a cabeça em sinal de consentimento. Iluda-se quem pensa que o amor é eterno! Não se enfureça, companheiro. Nem ouse abandonar a carruagem e deixar-me aqui a falar com os botões. Mas, francamente, uma das qualidades que ainda me resta é a frontalidade. Só uma?! Acha pouco? Bem, eu até tinha muitas mais. Vá, para falar a verdade, duas e meia. Foram penhoradas…É uma história que, digo-lhe, dava pano para mangas. Nem queira saber. O melhor mesmo é voltar novamente à primeira. Espere! Parece que perdi o fio à meada… Engana-se! Vem-me agora com essa coisa das prolepses. Essa agora, eu lá pretendo ser protagonista desta história. Que disparate! É ela, a tal senhora que encontrei na rocha (lembra-se?), de memória em riste e lápis afiado. Essa, sim. Ficou de registar na folha que o neto lhe havia oferecido todos os passos coloridos que dera em direção ao altar.
(...)
Maria da Fonte
Este excerto faz parte de um conto, da minha autoria, que integra uma coletânea.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Mea culpa













Não desesperem, amigos. Lembrem-se sempre daquele famoso limpa-vias que enchia a barriga à família com o arroz vindo do céu. Eu ainda tenho esperança de que algum político deixe cair da mesa um ou outro grão de arroz. Os restos? Já lhes perdi o tino ( ainda trago comigo a singeleza do sapateiro pobre…), podem ter cães em casa e esses ladram, eu não sei ladrar. Já dei comigo nas ruas à procura de alguém que me ensinasse, mas anda tudo tão calado. Não sei se é da minha barriga, que é demasiado grande, ou se são os outros que não têm barriga.
Mea culpa, ter a ousadia de também me sentir gente, de sonhar mais alto que o limpa-vias, de querer o mesmo céu que os políticos do meu país. Eles até são generosos, vão-me dando o chão da sua mesa.

Maria da Fonte
Imagem retirada da internet

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Palavras à discrição



Perco as palavras da mão,
Que caem do pensamento.
Umas partem-se no chão,
Outras fogem-me no vento.

Não desespero, porém,
Porque mais outras virão.
Só quem não lê nunca tem
Palavras à discrição.




Umas são ninhos de penas,
Onde adormeço sonhando.
Em noites longas, serenas,
Partem comigo em bando.

Outras são nuvens de pó,
Sem formas, brilho ou cor.
Cercam-me, deixam-me só,
Estonteada de dor.

Voltam depois novamente,
Como quem pede perdão.
Saltam nos dentes da gente
Em alegre agitação.

Contam-me casos de amor,
Que só os livros conhecem.
Rio, morro de pavor,
Amo heróis que nunca esquecem.

Dão-me jóias divinais
E vestidos de princesa.
Colhem sonhos em beirais,
Põem-me sonhos na mesa.

Com elas, eu corro mundo,
Atravesso a dor da vida.
A Terra fica sem fundo,
A chegada, sem partida.

Maria da Fonte
Imagem da internet

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Partilha














O maquinista deu sinal, vai partir.
E tu perdido no rebuliço da cidade.
Há quantas horas te espero?
Vou subir, na certeza, porém,
De que, sem ti, a viagem perde a cor
E a agilidade.

Que bom!
Atrasado, mas chegaste.
Senta-te aqui. As palavras são pequenas,
A carruagem é de segunda, tu sabias,
Mas a paisagem não tem número, é sempre a mesma.

Olha, lá longe, a cor do horizonte,
Como se fosse o céu da tua rua.
E pode ser,
Tu sabes, pode ser…
A verdade é o sonho que flutua
No querer de quem sabe e de quem quer.

Despe as árvores, as pedras, os caminhos.
Apaga o mundo e pinta novamente.
Pode ser como queiras,
Pode ser…
Com outro céu, outra terra e outra gente.

Dá- me um lápis da cor da igualdade
E eu ajudo-te a pintar esta ilusão:
As viagens entre o sonho e a verdade,
Como se fossem as linhas da nossa mão.

Maria da Fonte
Ilustração de Robert Steele

sábado, 22 de dezembro de 2012

O fustigar uníssono de um adeus






O tempo, um copo,
a vida, um trago só.
Na mesa, os restos ressequidos de ansiedade,
na tua face, um cheiro intenso a pó,
na minha mão, a tua mão, esta saudade.




Na sala, um enorme corrupio de avanços
e recuos controversos.
À superfície dos sonhos vãos, imersos,
uma fenda de silêncio,
um cais, um rio.

À janela, um céu sem céu,
um só esperar,
uma lua estilhaçada, um doer surdo,
um golpe no silêncio, um soluçar,
uma noite colossal,
um olhar turvo.


E sobre nós esta partilha tão calada,
o amalgamar dos teus gestos nos meus,
as horas gastas, o copo vazio,
o nada,
o fustigar uníssono de um adeus.


Maria da Fonte
Imagem da Internet


segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

É isso
















Veste-se de metonímia, sai à rua,
Persuadida do charme que ainda tem;
Em cada olhar, em cada boca tumultua.
Quem lhe resiste? Quem lhe resiste? Quem?

Imiscui-se entre a gente como o vento,
É quase um prodígio natural;
Surripia o dizer do pensamento
E sai-se sempre bem. É genial!

Com o tosco é mais solta, mais feliz,
Talvez até um pouco estouvada;
Uma espécie de tudo e de nada,
Bordão mágico do dizer de quem não diz.

Com o sábio é mais tímida, mais prudente,
Não ousa avançar sem um sinal;
Olha-o de soslaio, impertinente,
Por trás de uma pose doutrinal.

Esta figura tão prestável, tão galante,
Não é amiga, não é amante, não é gente;
É a COISA que nos sai a cada instante
Quando a palavra fica aquém de quem a sente.


Maria da Fonte
Imagem da Internet