domingo, 23 de novembro de 2014

E se alguém não tiver asas




Minha mãe chegou na primavera,
não suportava , por isso,
variações de temperatura.

Havia mulheres que lhe falavam
de El Niño, como se houvesse
entre elas e Deus um compromisso.

Minha mãe chorava, insegura.
Talvez lhe deixassem no lugar das veias
traços indisciplinados
de uma outra aventura.

De asas no ar, voava
atormentada.
E de nada valia a voz mansa
com que meu pai a afagava.

Depois, pousava os olhos no chão
e desenhava ideias secretas
que cheiravam a uma eterna
tempestade.

Auscultava o ventre
dilatado da terra e tinha enjoos.
Ouvia o rebentar das ondas
e segurava as lágrimas.

Ninguém entendia
a dor de minha mãe.
Se as estações do ano eram rotativas,
por que razão suspendia ela o tempo?

Mas… passaram-se nove meses,
e minha mãe, com o seu jeito meigo,
foi derrubando muros
e voando, a medo, pelas quatro estações.

Hoje, eu sei que, no meu bando,
se alguém não tiver asas nunca cai,
voa mais baixo por entre corações.

Maria da Fonte
APPACDM de Setúbal- terceiro prémio

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Jesus



Jesus, que moldura
se esconde em teu olhar?
Que céu cinzelado
tu seguras?

Em que folha te traço?
que rasuras?
E em que parte
me deixo ali ficar?

Não me peças
um lado, arrefeço.
E a linha que tu és
gela-me o chão.

Faz-me crer, Jesus,
na folha em branco,
sem as margens
que percorro com a mão.

E se o céu que tu levas
é inteiro,
o teu rosto não pode
ser metade .

Diz-me, Jesus,
do chão que tu pisaste.
De que traços se fez?
De que vontade?

Não sei, Jesus! Não sei!
Nasce outra vez,
em parte alguma,
talvez em toda a parte.

Diz-me que és linha
inteira que se fez
em folha branca, Jesus.
Quero guardar-te.

Maria da Fonte
Imagem da internet

domingo, 10 de agosto de 2014

«E assim como o mundo se chama mundo, porque é imundo, e a morte se chama Parca, porque a ninguém perdoa, assim a nossa terra se pode chamar Lusitânia, porque a ninguém deixa luzir» Padre António Vieira


2 políticos devassos,
4 palavras de cor,
3 homens e 6 braços.
Regue q.b. com suor.

Um horizonte farpado,
Uma travessa de prata.
O mesmo sistema usado
No timbre do diplomata.

Repita as interjeições
As vezes que entender.
Um grama de eleições,
O resto do tempo a arder.

Junte um pedaço de mim,
Recorte-me a emoção.
Dissolva tudo assim,
Tal outra rebelião.

Bata tudo outra vez,
Agora muita mais gente.
Talvez consiga, talvez,
Um passado no presente.

Depois, do cimo do pódio,
Espreite o calor do fogão.
Quando já ferver o ódio,
O pitéu vira carvão.

Um balde, água bem fria.
Comece tudo de novo.
Invente, tenha ousadia.
Quem faz o povo, é o povo.

Maria da Fonte

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Fragmentos



Daqui, deste mar, eu vejo a vida
até onde o olhar não pode mais.
Acerto o passo ao ritmo das ondas.
De vaga em vaga, vou divisando o cais.
E neste navegar ergo palavras,
levanto o reino de um tempo já perdido,
pressinto por trás das vagas outras vagas,
paro, descanso neste sigo...não sigo...


Maria da Fonte
Imagem da internet

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Formalidades


Pedem-lhe
que trace o futuro,
e num poema
os pés de peregrino.
Crava no alto a corda,
vai subindo,
como quem fende um rasgo
no destino.

Depois olha do alto
o corpo em suspenso,
e com o lápis
desce até ao chão.
Tudo lhe fere os pés,
um medo imenso.
Sobe de novo a corda
da ilusão.



Segue o rasto
de todas as estrelas,
e, em rabiscos
sem se deixar tocar,
vai trocando os vales
pelas serras,
algures perdido num mapa
por traçar.


Foge da tela,
um lápis e o nada,
a corda gasta,
a mão e nunca mais.

E se às papilas
a terra for pesada,
traz no poema
as marcas digitais.

Maria da Fonte
Imagem da internet




segunda-feira, 26 de maio de 2014

Saudade


É a ti que eu vejo
no eco do que penso,
a tua voz terna
fende o espelho fosco.
E como se em mim
se deitasse o dia,
durmo, embriagada,
à sombra do teu rosto.

E quando tu chegas,
as brechas da morte
são covis do tempo
onde enterro o medo.
E é na noite cheia
de imenso deserto,
ainda que pareça ferir
meu sossego,
que eu te vejo o rosto,
que eu te sinto perto.

Mas se for em vão
a minha deriva
e as pernas cederem
ao peso da história,
diz-me que este amor
não cabe na vida,
Que há mapas de sonhos
maiores que a memória.


Maria da Fonte
Imagem da internet

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Parte de mim



Junto aos meus os pedaços dos outros
E conserto o que sou.
Retoco as fendas, fico na sombra de mim.
É madrugada, e as verdades retilíneas da luz
Ferem-me o rosto.

Maria da Fonte