quarta-feira, 23 de julho de 2014

Formalidades


Pedem-lhe
que trace o futuro,
e num poema
os pés de peregrino.
Crava no alto a corda,
vai subindo,
como quem fende um rasgo
no destino.

Depois olha do alto
o corpo em suspenso,
e com o lápis
desce até ao chão.
Tudo lhe fere os pés,
um medo imenso.
Sobe de novo a corda
da ilusão.



Segue o rasto
de todas as estrelas,
e, em rabiscos
sem se deixar tocar,
vai trocando os vales
pelas serras,
algures perdido num mapa
por traçar.


Foge da tela,
um lápis e o nada,
a corda gasta,
a mão e nunca mais.

E se às papilas
a terra for pesada,
traz no poema
as marcas digitais.

Maria da Fonte
Imagem da internet




segunda-feira, 26 de maio de 2014

Saudade


É a ti que eu vejo
no eco do que penso,
a tua voz terna
fende o espelho fosco.
E como se em mim
se deitasse o dia,
durmo, embriagada,
à sombra do teu rosto.

E quando tu chegas,
as brechas da morte
são covis do tempo
onde enterro o medo.
E é na noite cheia
de imenso deserto,
ainda que pareça ferir
meu sossego,
que eu te vejo o rosto,
que eu te sinto perto.

Mas se for em vão
a minha deriva
e as pernas cederem
ao peso da história,
diz-me que este amor
não cabe na vida,
Que há mapas de sonhos
maiores que a memória.


Maria da Fonte
Imagem da internet

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Parte de mim



Junto aos meus os pedaços dos outros
E conserto o que sou.
Retoco as fendas, fico na sombra de mim.
É madrugada, e as verdades retilíneas da luz
Ferem-me o rosto.

Maria da Fonte


quinta-feira, 27 de março de 2014

Ponte de Lima



O vento sopra em surdina,
Numa serenata errante,
O choro de uma menina
Ao ver partir um Gigante.

De olhar tão triste, cansado,
Surgiu deitada no leito,
Com o vestido molhado,
Com uma chaga no peito.

Um corpo jovem, esguio,
Dois seios, torres fatais,
Deitada ao longo do rio
Entre as pontes, os beirais.

E vendo além a cadeia
Onde encarcerar a dor,
Alimentava essa ideia
De morrer ali de amor.

Mas ao banhar-se no estio,
Foi esquecendo a dor ardente,
Ou porque fosse do rio,
Ou porque fosse da gente.

Hoje é princesa do Lima,
Legado, foro distante.
Alguns lhe chamam menina,
Outros segredam amante.


Maria da Fonte

sábado, 1 de março de 2014

Regresso



Levai-me, vento do norte, ao ventre
de minha mãe, falai-lhe da minha sorte,
mas não digais a ninguém.

Se ela, por medo, chorar ou, por culpa,
adoecer, dizei-lhe, para a acalmar,
que eu preferi não nascer.

Só ela me entenderá, só ela
sabe tão bem que a rosa sem a redoma
fica à mercê de quem vem.

No breve correr das horas, onde nunca
sei de mim, dizei-lhe que tenho medo,
que quero o seu ventre, sim.

E antes que gaste o que tenho à procura
do que sou, quero saber ao que venho
no ventre que me gerou.

Pois se hei de voltar um dia ao ventre
de mais alguém, que seja ao ventre da terra
no ventre de minha mãe.


Maria da Fonte
Imagem retirada da internet



segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Sem amanhã

Olhar o céu,
Sonhar-te o infinito.
Pousar no chão,
Ver-te nuvem de pó.
Saber-te as pontas
da carne, do mito,
De um mesmo fio
E de um mesmo nó.



Atravessar quem és,
Saber-te em mim.
Calar em nós
Os gestos da utopia.
Viver de amor,
Morrer de amor assim.
Só por amor,
Um dia após um dia.

Maria da Fonte
Imagem retirada da internet

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Amigos, hoje apeteceu-me rir de mim.


Num encontro de talentos,
Lá para os lados da Terra,
Sopravam fortes os ventos,
Como quem vive uma guerra.

Aquele diz ser cantor,
Este poeta que encanta.
Um porque fala de amor,
Outro porque tem garganta.


O primeiro, furioso,
Pensando ser enganado,
Mandou o outro, por gozo,
Ir cantar para outro lado.


O segundo respondeu
Àquela provocação.
-Aqui o mestre sou eu,
Tu não passas de um pavão.


E nisto, braços no ar,
Gente assustada a correr.
Um que não sabe cantar,
Outro não sabe escrever.

A vergonha não importa,
A gente estava dispersa.
Já os dois fora da porta,
Continuava a conversa.

-Eu sou porque assim o quis.
Dizia sem desmentir.
Uns torciam o nariz,
Outros partiam-se a rir.


-Eu nem preciso de ensaio,
Eu tenho vocação certa.
Uns olhavam de soslaio,
Os outros, de boca aberta.

Sai da betesga um amigo
Com cara de ter também
o ego preso ao umbigo,
talento como ninguém.


Agora, três são de mais,
Não há gente que resista.
Há mais arte que pardais,
Há menos homem que artista.


Já que assim é, também eu
Quis mostrar de uma empreitada
Que a arte também me deu
O dom de não saber nada.

Maria da Fonte
Pintura: João Cristino da Silva