Entre as brechas da noite,
Equilibro a vida num malabarismo quase que mortal.
Arrasto amedrontadamente os pés pela tímida linha do destino,
Esgueiro o corpo por entre as garras devassas da luz,
Aninho o medo em covis suspensos no terror das horas,
Espreito apavorada o salto fatal.
As feras farejam a minha pequenez,
Cospem, inebriadas, o horror do meu rosto,
Degustam o cansaço que me deixa pendente,
Decapitam-me a confiança com instinto animal,
Arrancam-me da alma a forma de gente.
E eu quero a noite negra, num silêncio imenso,
Onde nada é verdade e eu sou uma miragem,
Para lá do que vejo, para lá do que penso...
Descolar deste brilho tão falaz, tão selvagem,
Sair como entrei, nua… sem bagagem…
Maria da Fonte
Imagem retirada da internet





