sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Petulância














Se nunca
Coubeste nos meus sonhos,
como podes querer pintar-me o céu?
Se nunca
adivinhaste os meus olhos,
como ousas encurtar o leito das minhas lágrimas?
Se nunca
dissecaste as partes do meu todo,
como te atreves a desvendar-me por inteiro?

Maria da Fonte
Imagem da internet

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

AMIGOS, hoje apeteceu-me brincar com um assunto mais delicado. Perdoem-me os menos céticos.

A voz do povo


Maria chegou um dia
A casa muito assustada,
Trazia o medo no bolso
E já vinha derreada.
Ouvira dizer na praça
Que o mundo ia no fim.
Ela, que nem o provou,
Desancou-me logo a mim.
-Maria, não acredites
Nos tempos de «era uma vez…».
-Acredito, é verdade,
Vinha num livro chinês.
Vi-me forçada a chamar
O padre da freguesia.
De bíblia aberta apontou-me
Bem no meio a profecia.
-Jesus! Que posso dizer
Agora à minha Maria?
Vamos tratar de comer…
Amanhã é outro dia.
Mas... espera. Vou chamar
Pessoa mais adestrada,
Não vá mesmo acabar
E amanhã não temos nada.
Olha, acaba de chegar
Doutor de livro na mão.
Só ele pode mostrar
Tão cruel aberração.
Abriu a pasta e tirou,
Com enorme confiança,
Os livros onde ensinou,
Como «A grande mudança».
Lia, ostensivamente,
-Co-mal-cal-co - devagar.
Era a pedra que dizia
Que o mundo ia acabar.
-Também este…Estou perdida!
Que vou dizer à Maria?
Que o mundo fora só meu?
Que nem lhe deixei fasquia?
Quero homem da ciência.
Tudo passos de cosmética…
Logo o sábio soletrou:
-In-ver-são- ge-o-mag-né-ti-ca.
-Não me diga que é verdade?
Que é isso? Que me diz?
Que faço agora ao que tenho?
Não comi tudo por um triz.
Espera…olha a televisão:
«Fim do mundo adiado.
Homens em concertação.».
Jesus! Foi tudo forjado.
Estou perdida, minha gente,
Com tamanha execração.
À custa de tanto sábio
Fiquei de calças na mão.

Maria da Fonte
Imagem da internet






segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Descolar da miséria



Facilmente se emocionava com o infortúnio alheio, chegava mesmo a verter algumas lágrimas quando alguém lhe trazia uma história mais comovente. Todos os habitantes podiam contar com ele. Nenhuma história macabra caía no esquecimento. A vida jamais se tornaria um monólogo, havia sempre o intercalar de um «Ai Jesus!», num linguajar corriqueiro que lhe trazia mais sentimento à causa.
Regressava a casa e, já no conforto do seu ninho, começava a reconstruir as histórias e a salpicá-las com uma pitada de sal para que não lhes faltasse aquele pavoroso sabor que sempre abre o apetite aos enjoados da vida. A desgraça dos outros não o incomodava minimamente, até lhe trazia algum alento. Foram várias as vezes que o ouvi dizer: «Gosto de estar entre os pobres para me sentir mais rico.».
As tragédias de rua davam lugar às mais ousadas e arrojadas comédias: «Não têm comida em casa! Até parece que eu tenho na minha. Que horror! Aquele cheiro nauseabundo da cozinha enoja-me. Tenho ali umas bolachas integrais e chegam-me, de resto é no restaurante. Dizem que não podem. Francamente! Também não podem ir ao ginásio. Fica ela por ela!». A família contorcia-se com o sentido de humor do patriarca. Aquilo é que era um homem versátil. Só mesmo ele para agradar a gregos e a troianos.
Na rua, chorava compulsivamente. Sabia que do alto da tribuna tinha que manter a prudência. Não podia, sob pena de cair desconcertado no chão, sacudir os que lhe amparavam o pódio. Melhor era, debaixo de um olhar envergonhado, adotar um timbre de voz mais agudo e trémulo, embalar as formigas no seu canto. Só assim, a compaixão de um homem pode ganhar asas e descolar da miséria.

Maria da Fonte

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Não














E os abutres chegam como balas
trespassando os cadáveres da desgraça.
Pousam em bandos nas margens da miséria,
fazem o cerco à fome que ali grassa.
Bicam os ossos da carne do outrora,
soltam as garras, afiam a arrogância.
Ingurgitados, num ápice, vão embora…
Tudo em nome da salvação (ou da ganância).


Sucedem-se uns aos outros como larvas,
a devorar os corpos putrefeitos.
Os movimentos dos vermes são perfeitos,
só as horas, infindáveis, são amargas.

E o vaivém dos abutres embala a dor
dos que se deixam comer tão facilmente.
Galardoam-se uns aos outros, solenemente,
e os mortos assistem, sem pudor.

Que noite pode ocultar tal ousadia?
Que dia pode lavar tanta ambição?
Que Terra pode girar sem haver dia?
Que gente pode morrer sem dizer NÃO?




Texto: Maria da Fonte
Imagem: birdstrikepirum.blogspot.com

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Nos meandros da loucura

















Dizem-me louca por desnudar a alma,
deambular por aí grandes monólogos.
E eu olho-os debaixo de mim, assim fugaz...
tão indiferente, tão distante, tão serena.
Manietada?! Não sei viver! Não sou capaz!
Antes ser louca, sim, mas ser plena!
Não posso! Não quero! Não sei ser só metade!
Só sei ser eu à margem do senão.
A insânia em constante erupção,
afrontando os preceitos da verdade.
E sei ter asas, ser quadrúpede, rastejante…
dilacerar os dias num instante,
sem talheres, etiquetas…pulcritude.
E o que é a razão, sem a plenitude?
Digam-me lá, detentores da certeza!
É ser bípede, comer a uma mesa…
Julgar-se, quem?! Dono da virtude?!

E vocês sabem lá o que há de mais certo!
Pois… a morte do idiota e do esperto.
Com uma grande diferença, é sabido:
o esperto só viveu a morte;
o idiota morreu por ter vivido.

Texto: Maria da Fonte
Imagem: Mark Freedom



quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Mundo em branco



Ontem saí por aí de saltos altos,
lábios rasgados num sorriso inteiro,
corpo liberto de algemas,
coração a mendigar um abraço franco.



Cruzei multidões espargidas em corpos disponíveis,
ruas seduzidas de vícios,
bares entupidos de beijos,
copos empilhados de delírios,
lábios manietados à excentricidade do sorvo,
olhares parados,
braços ressequidos de afetos,
desejos mascarados,
corpos em ruínas.

Um mundo disponível,
onde eu chegava e tudo me chegava.
Um mundo em branco, ilegível,
onde o meu abraço franco se apagava.

Maria da Fonte
Imagem retirada da internet


sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Entre a ganância e o chão

Quando os sonhos adormecem,
as noites escorrem em vão,
os dias pingam, humilhados,
e homens morrem esmagados
entre a ganância e o chão.

Os ossos dos que rastejam
embalam suavemente
a carne dos que sobejam
à tona de um mar de gente.

E o sangue corre ligeiro
por entre vales de fome
e montanhas de cobiça.
Ninguém estanca a escória,
morremos… é nossa sina
(somos gente submissa).

E a Terra não é redonda
como o prato da minha mesa.
É dividida em estratos:
fome, tortura, avareza.

E os homens não são iguais
como apregoam por aí:
há homens que são mais homens
e homens que nunca vi.

Maria da Fonte
estereotipodaperfeicao.blogspot.com