quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Avô






Avô, há uma parte da história que não lembro.
Vem cá baixo contar-ma…espero por ti.
Tudo continua como antes,
só o lado esquerdo do meu quarto está vazio…
Foste embora, Avô, e nem um bilhete me deixaste.
Eu sei…mas tu podias ter pedido a alguém para o escrever.
Não o fizeste, porquê? Estavas zangado comigo
por eu acreditar que os lobos comem meninos?
Vem, Avô. Quero dizer-te que eu acredito em ti,
mesmo quando não te entendo…
Quero dizer-te que não consigo crescer…
e tu, Avô, prometeste fazer de mim um homem…
Não me deixes! Não me deixes, Avô!
Ensina-me primeiro a construir as minhas asas,
E pede a quem te levou que deixe vazio o lado esquerdo do teu quarto.
Depois, só depois, poderás partir.
Eu prometo que todas as noites te visitarei
para te dizer: Avô, eu acredito em ti.

Maria da Fonte

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Leva-me









Quando em mim tudo acabar, podes levar-me
para o lugar mais recôndito da terra.
Leva-me.
Quando o meu coração não te sentir,
quando os meus olhos abertos não te virem,
quando as minhas mãos não suportarem o peso dos meus sonhos,
leva-me.
Quando em mim só houver raízes,
quando eu não sentir o sopro das estações,
quando nem os pássaros se puderem acalentar nos meus ramos,
leva-me.
Quando as minhas águas estagnarem,
quando no meu leito só houver lodo,
quando o meu rio for um jazigo de peixes,
leva-me.
Quando a aridez do meu solo não deixar crescer papoilas,
quando nem os fertilizantes forem capazes de fecundar o meu chão,
quando os homens semearem no meu cerro a sua pena,
leva-me.

Texto: Maria da Fonte
Imagem: metamorfosetranscrita.blogspot.com

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Há dias


















Há dias
em que saio de mim, bato a porta
e recuso-me a entrar.
Há dias
em que não sei ao que vim, nem sei
onde me leva o caminhar.

Há dias
em que a tudo dito um fim e nada
me incentiva a outro estar.
Há dias
em que não sei dizer sim a quem
tanto me pede para ficar.

São dias
onde fico tão pequena, vencida aos pés
de todo este querer, e, como um condenado,
espero a pena.

São dias
de excessivo temporal, onde congela
todo este meu ser, e retiro
aos meus dias o plural.


Texto: Maria da Fonte
Imagem:aremerewishes.blogspot.com

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Colher a vida

















Cresci,
perdi a agilidade
que me deixava trepar às árvores.
Acreditei que poderia contemplá-las
cá debaixo.

Não tenho pernas que me levem,
mas tenho memórias
que me trouxeram até aqui;
não tenho mãos que me aguentem,
mas tenho sonhos
que me servem de alavanca
para pousar em ciprestes
e,
sentada à sombra das árvores,
colher a vida.
Texto: Maria da Fonte
Imagem: vladraphaeldracul.blogspot.com

Pudesse eu



















Pudesse eu
entrar no labirinto dos teus medos
e deixar-te voar nas minhas asas!
Pudesse eu
roubar o horizonte e partilhar
contigo esse segredo!
Pudesse eu
impedir o Sol de derreter
os teus sonhos e
proibir o mar
de lavar essas memórias!
Texto: Maria da Fonte
Imagem: melhorpensandobem.blogspot.com

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Natividade




















Que a minha hora seja a mais pequena!
Já não suporto mais a dor chegada.
Não a do corpo, que essa é serena,
Mas a da sorte, que já vem traçada.

Vem até mim, meu Anjo Salvador.
Traz-me a esperança para o deitar.
Leva de volta a mortalha da dor.
Ainda é menino. Deixa-o descansar.

Não vás embora. Preciso de ti.
Não tenho roupa, só calor humano.
Deixa-o comigo, para sempre, aqui.
Não mo devolvas ao colo tirano.

Que culpa tem do que não viveu?
Por que razão vai ele a julgamento?
Guarda-o contigo. Prefiro ir eu.
Julgai-me a mim, pelo seu nascimento!

Pintura: Paula Rego
Texto: Maria da Fonte

sábado, 5 de novembro de 2011

Ilha















Como eu quero ser essa ilha embalada
Nos infinitos braços do Oceano.
Adormecida ali, mesmo acordada,
Num horizonte altivo, soberano.


As ondas, o meu berço, a minha estrada
Em algodão, sem asfalto profano.
Esses corais, a chama procurada
No colo de um amante mais humano.

É neste céu terreno que me invade
Que eu, ó Mar, te segredo esta vontade
De dormir no teu colo paciente.

Jamais acabe em mim esta paixão
Que me permite viver a ilusão
De me entregar a Ti, sofregamente!

Maria da Fonte