terça-feira, 29 de julho de 2025

 


                                                 

Quando eu nasci, as manhãs chegavam,

sem o estudo do mercado,

com as horas fermentadas

e sabor a feijão branco.

 

Quando eu nasci, a voz de minha mãe

subia a passo firme

pelas janelas

e o céu andava sempre pelos telhados.

 

 

Depois, chegaram os outros

e alguém se lembrou

de me dizer que a terra vacilava

e o sol nem se movia.

 

 

Foi então que eu, já tão morta de cansaço

e já tão desgovernada,

saí sozinha de casa

e caí na poesia.

 

 Maria da Fonte

terça-feira, 22 de julho de 2025

 


Resolveram acabar com a guerra,

já não havia meninos para matar.

 

Os homens de palavra

abriram os braços

com água macia entre os dedos

(para lavar as páginas dos jornais)

 

e os soldados partira sem destino,

com a farda puída de cansaço

e o sonho curvado ao gatilho.


Maria da Fonte

terça-feira, 8 de julho de 2025

 


Faz-te de barro,

frágil como um jarro.

Cheia de medos

e angústias sem nome.

 

Contrai o peito,

arquiva os desaires,

impulsiona a dor até ao chão.

 

Com a palavra mais longa do mercado,

carrega o verbo,

pontua a desgraça.

 

Se ainda houver

quem te não reconheça,

põe-te de cócaras.

 

E, num punhado azedo

de metáforas,

retoca a sombra

redonda dos teus dias.


Maria da Fonte

Imagem retirada da internet