sábado, 29 de outubro de 2011

Amigo



Indagou-me um dia
o Mestre, impaciente,
no final da prova que fazia,
se eu tinha uma resposta
convincente para a pergunta
que, por fim, ali se impunha.
Olhei-o do cimo do meu ser,
ofendido com aquela questão.
Não havia, ali, no meu saber
incerteza, qualquer hesitação.
Silabou A-MI-GO, devagar,
e, colando o seu olhar ao meu olhar,
pediu-me que definisse o que dizia.
Questionei a sua autoridade,
o seu saber, a sua sanidade,
o que ditou pergunta tão vazia!
E, num sopro, cuspi de uma só vez:
AMIGO, amizade, amante, aliado,
o que ama, amásio, partidário, afeiçoado…
A resposta, que eu dei, que ele refez,
deixou-o suspenso, assustado.
-AMIGO… sábio, douto, erudito,
é muito mais que um dicionário;
é o infinito, o intocável, o não dito,
o que não cabe no teu abecedário!

Maria da Fonte

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Tubarões















Se eu fosse o outro peixe desmedido
Que Aquele Homem pregava no Sermão,
Seria não servente mas servido
Por quem me atraiçoa, usurpa o pão.

Ai se eu não fosse o peixe comedido
Que trabalha sol a sol, servidão,
Arrancava-te o dito, o prometido,
Noutros tempos…aqueles de eleição!

É nesta ira, na raiva que me invade,
Que eu desanimo e quase me enfraqueço,
Perco o corpo, o meu suor e a vontade

De dar a tubarões usurpadores
O pão que me pertence, que mereço,
E que fica na mão desses senhores.

Maria da Fonte

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

É aqui














É aqui
que corro mundo, sou feliz,
Invento caminhos, ventos e amores,
Tenho asas de papel em muitas cores,
Ponho máscara, digo o que não fiz.

É aqui
que me socorro e me levanto,
Sou tormenta, bonança, pôr-do-sol.
Levo comigo o sonho em caracol,
o real, a quimera e outro tanto.

É aqui
Que nasço, sou, eternamente,
o profeta, o mundo, a transcendência.
Busco em cada letra complacência,
e nela sou ninguém e toda a gente.

É aqui
que me absorvo, sou suprema,
a saltar nas palavras, sem cair.
E se um dia o meu corpo sucumbir,
deixai-o repousar no meu poema.

Maria da Fonte

terça-feira, 18 de outubro de 2011

No teu olhar




















Não me fites assim, que me convidas
A devaneios escusos, dispersos.
Não escondas as sensações vertidas
Por entre olhares ocultos, submersos.

Deixa cair as vontades contidas,
De alegria, dor, sentires diversos.
Não te olhes em cópias coagidas.
Vê-te livre na tela dos meus versos.

Que esse olhar vacilante, diferente,
Te deixe aqui viver eternamente,
Te diga tudo aquilo, nunca dito.

Que esse sorriso, chama universal,
Te leve muito além do bem, do mal.
No teu olhar se albergue o infinito.

Texto:Maria da Fonte
Pintura: Leonardo da Vinci
Este texto faz parte da antologia «Acordando Sonhos»

sábado, 15 de outubro de 2011

Grito





Suspendi
o horizonte
no meu grito
amortalhado
por ventos
adversos.

Cerrei
na minha voz
o infinito
de planos
de sentidos
dispersos.

Esvaído
em sangue
o meu pavor,
contaminei
o sol
que morria.

Manchei
de vermelho
a minha dor,
matei a comunhão
que aqui
jazia.

No sufoco
sinistro
do agora,
sou a sombra
do grito
que em mim mora.

Poema de Maria da Fonte
Pintura de Edvard Munch

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Eu quero descer do alto dos tacões


Eu quero descer do alto dos tacões,
Que me levam por betesgas, vielas.
Quero correr descalça em ilusões,
Em liberdade, como correm elas.

Despir-me de mim, do meu parecer,
Voltar ao meu vestido de criança,
Rasgar o excedente do meu querer,
Voar nas memórias da lembrança,

Brincar nos caminhos da inocência,
Viver constantemente de porquês,
Repousar no olhar desta aparência,

Despertar no colo da lua cheia.
Imaginar que poderei, talvez,
Ser a estrela que no sonho me enleia.

Maria da Fonte

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

A palavra






















Nasceu a palavra
do ventre do universo.

De rimas vestida,
de leve conotação.
A cabeça pendente
na ilusão,
o corpo espraiado no verso.

Cresceu.
Um corpo de mulher!
A estrofe lasciva, sensual!
De desejos povoados
de um querer
descobrir-se
no leito conjugal.

Desfolhada
de sentidos variados,
entrega-se às mãos
do sedutor.

No poema,
de corpos enrolados,
a palavra
e o leitor
fazem amor.

Maria da Fonte

sábado, 8 de outubro de 2011

Esboço ideal
















Foste o esboço ideal
de um projeto,
levantado num dia de temporal.
Cimentei de desejos todo o teto,
Ignorei os alicerces,
o principal.

Desmoronaste,
Eu fiquei despida.
Nos escombros,
enterrei o meu pudor,
Desatei a minha mão
da vida,
Exumei o meu grito,
a minha dor.

Hei de voltar
a erguer
o meu castelo,
de telhado aparente, surreal.
Aquele,
o mais seguro,
o mais belo,
de alicerces cimentados de real.

Maria da Fonte

domingo, 2 de outubro de 2011

Cavaleiro andante








Percorro as entrelinhas do real,
Caminho feito cavaleiro andante.
O meu escudo é viver o instante,
O meu verso é lança virtual.

Vou longe no cavalo Rocinante,
Muito para além dos pensamentos.
Atravesso os quatro elementos,
Descanso num viajar constante.

Sou este o viajante que procura
A amada no infinito perdida.
Por ela, trago a alma vestida
De ilusões e rasgos de loucura.

Por Ti, só por Ti, ó Dulcineia,
Foram pintadas imagens no papel.
Tu foste a tela, eu fui o pincel,
Mentores de tamanha odisseia.

Nem tu, meu amigo de viagem,
Me devolveste a lucidez deixada
Na porta de acesso à entrada,
Onde a saída era uma miragem.
Maria da Fonte

sábado, 1 de outubro de 2011

Ponte de Lima







O rio Lima
Enliçado à sua amada
Sob as pontes.
Escorada sentinela.
Ele, extasiado, a afaga,
Ela, esfuziadamente, se revela.

Entre as gentes convocadas prometeram
Amor eterno,
Casamento,
Fidelidade.
Ele seria sempre o seu rio,
Ela jamais seria uma cidade.

Em singular recanto da natureza,
É aguarela digna de tu veres,
A entrega nupcial dos dois Seres,
Pintada pelas mãos de Dona Teresa!
Maria da Fonte