quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

AVÓ




















Eras tamanha ,avó, dentro do teu mundo tão pequeno.
E eu gostava tanto de te ver a esticar as palavras
e a dobrá-las em mil pedaços para acudires a tudo.
Que bem eu entendia o teu sacudir de braços,
o teu dizer mudo, o teu olhar profundo.
Avó, sabias que o teu mundo era e meu mundo?
Hoje, o meu céu cresceu, mas as tuas palavras
gelaram no frio da noite.
E eu, avó, fiquei sem ti,
a olhar a vida lá do fundo.
Queria tanto aprender contigo,
ter-te de volta aqui…
Avó, sabias que o teu mundo era o meu mundo?

Maria da Fonte
regiscalheira.wordpress.com

sábado, 31 de dezembro de 2011

Palavras ao vento








Atiro palavras ao vento como quem lança um papagaio e espera que ele teça o meu sonho no céu. Há dias em que elas caem no abismo dos sentidos e eu fico suspensa nas asas do meu querer…Os ventos são revoltos, as palavras são frágeis, mas o meu sonho é firme. Enquanto houver folhas em branco e céu imenso, eu continuarei a lançar ao vento papagaios.
Estou certa de que o anfitrião das crianças, dos poetas, dos cientistas… não vedará a minha entrada. Não há caminho de regresso para alguém que, sem asas de andorinha, palmilhou o infinito à procura de um albergue.

Maria da Fonte
corpodepoema.blogspot.com

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

O meu Natal

O meu Natal
perdeu-se na cidade,
tolhido em
labirínticas
folhas de jornal.
Dormitou no passeio
trivial ,
aos pés de palácios
de vaidade.

Maria da Fonte
multiplasideias.blogspot.com

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Retrato



















Hoje pintei o meu retrato
na tela do momento que fluía.
Olhei-me nas águas e só via
o trivial, o vulgar, o caricato.
Encolhi o olhar, envergonhada,
das águas que me viam no instante.
Como podia eu ali ver nada
se o meu olhar era firme e confiante?
Virei-me dos avessos e sacudi
um interior que pudesse pintar.
Mais segura agora deste estar,
de pincel na mão, dei cor ao que vi:
o sonhar pintei de lua cheia,
com laivos de loucura e ilusão;
o amor, em forma de teia,
onde aconcheguei o coração;
a arrogância, o ódio e a vaidade
atirei para lá do horizonte.
Gastei o pincel, a tinta, a idade.
Não pude, ou não quis, pintar a ponte.
Maria da Fonte
Imagem: raphaelmarins.blogspot.com

sábado, 26 de novembro de 2011

Pavor


Vou caminhando
por entre o meu pavor
o vento triste
bate-me no rosto
o chão que piso
da imensa dor
não me traz senão
o medo dum sol-posto
rasgo o céu
apedrejo a lua
enterro a noite
na alma tão sofrida
suspendo as estrelas
na corda do tempo
enforco o horizonte
na linha da vida

Maria da Fonte

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Ladrão de sonhos
















O escravo vai nu 




e algemado
sob o olhar
de quem
dita o querer
o sonho
ofereceu-o
obrigado
ao carrasco
que o guia
no poder
sem sonho
sem força
sem condição
é o eco
a sombra
do ladrão




o ladrão vai nu




e eriçado
ostentando
o troféu
e o dizer
o pudor
ofereceu-o
ao escravo
que o deixou
subir tão alto
no querer




os dois vão nus



e agitados
por caminhos
alarmantes
e medonhos
o primeiro
por se deixar
roubar
o segundo
por ser ladrão
de sonhos

Texto: Maria da Fonte
Tela: Salvador Dali

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Avô






Avô, há uma parte da história que não lembro.
Vem cá baixo contar-ma…espero por ti.
Tudo continua como antes,
só o lado esquerdo do meu quarto está vazio…
Foste embora, Avô, e nem um bilhete me deixaste.
Eu sei…mas tu podias ter pedido a alguém para o escrever.
Não o fizeste, porquê? Estavas zangado comigo
por eu acreditar que os lobos comem meninos?
Vem, Avô. Quero dizer-te que eu acredito em ti,
mesmo quando não te entendo…
Quero dizer-te que não consigo crescer…
e tu, Avô, prometeste fazer de mim um homem…
Não me deixes! Não me deixes, Avô!
Ensina-me primeiro a construir as minhas asas,
E pede a quem te levou que deixe vazio o lado esquerdo do teu quarto.
Depois, só depois, poderás partir.
Eu prometo que todas as noites te visitarei
para te dizer: Avô, eu acredito em ti.

Maria da Fonte