domingo, 22 de março de 2026


Abri demoradamente o teu lugar

e devagar sacudi o medo.


Depois,

exposta ao ardil das montanhas,

deixei cair

as palavras como trilhos.

 

Picotei nas pedras mornas

o regresso

e acomodei no fundo do poema

 o meu sossego.

 

 Maria da Fonte

 

domingo, 8 de março de 2026

 


É pouco, meus senhores.

É muito pouco,

o dia com a fita colorida.

 

Já foram ao portal do INE?

Já ouviram falar em equidade?

Em saúde?

Em salário?

Cultura?

Lazer?

Emprego?

Direitos?

 

Já ouviram falar em expectativa?

 

Oitenta e três, meus senhores.

Oitenta e três.

É esta a esperança média de vida.

 

 Maria da Fonte

domingo, 15 de fevereiro de 2026

 

 
Aqui fica o rescaldo do dia dos namorados.

Ai meu amor! Meu amor!

Vamos na quinta edição.

 

Enquanto tu me dizias,

eu segurava o teu rosto

e limpava um camarão.

 

Todas as letras caíam

nos meus dedos com fulgor,

carregadas por inteiro,

como cai a rendição,

a misturar o sabor.

 

Ai meu amor! Meu amor!

O que ontem me pareceu brilho

hoje parece suor.

Maria da Fonte

Imagem retirada da Internet

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

 



E os poetas,

que se consomem

com metáforas alinhavadas

numa colher de sopa,

querem-nos convencer

de que um punhado de poemas no bolso

deixa a morte sem poder.

 

Dizem, em manifestos,

que a poesia salva cidades,

que há sempre a possibilidade

de trocar um pão por uma flor.

 

E meio pão e um livro,

diz o poeta,

não deixam ninguém

morrer.

Maria da Fonte

domingo, 11 de janeiro de 2026

                                                                     



                                                                                                           Mulher,

assim calibrada,

com bloco de notas,

tambor e botões,

 

assim magnética,

de motor giratório

e custo reduzido,

 

assim ajustada,

de corrente contínua

e grandes precisões,

 

és a voz sem a vez

e um lanço de escadas,

para duas profissões.

 

Maria da Fonte

Imagem retirada da Internet