sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018


De repente,
outro nome me nasce nos teus dentes
e nos teus dedos reparto-me pelo mundo.

É no adejar dos teus braços que supero a distância
e com um punhado de beijos
que me arrumo.

Maria da Fonte
Imagem retirada da Internet

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018


Posiciono-me no vértice do pensamento,
procuro comodamente posição.

Cerro o olhar e deixo-me cair,

sem coordenadas,


até ao coração.


Maria da Fonte
Imagem retirada da Internet

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

À noite o tempo tem mais pressa



Um rasgo de mão e acrescentas
um qualquer pormenor ao vaguear.

(À noite o tempo tem mais pressa,
as sombras vestem agasalhos.)

Um rosto espera por ti
e tu desenhas-te sorrateiramente no olhar.

Em fila os dedos guardam novos rumos.

Deixas-te descer pontualmente,
resgatas-te, depois, em cada corrente de ar.

Maria da Fonte

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018


De cima, as curvas dos ratos escondem
figuras de gente. Com efeitos laterais,
nunca visíveis de frente.

Na construção da imagem,
a obra engana o olhar.
Um rato desaparece, outro surge em seu lugar.

Um jeito dado à tela,
e os pequenos roedores, das tocas onde procriam,
emergem aos corredores.

No baloiçar da moldura para um e outro lado,
percebem-se leves traços
de um peito meio inchado.

Estendem-se depois os efeitos do centro
até às beiras e os ratos pincelados
criam famílias inteiras.

E se a tela não cair ,entre uma e outra pista,
detalhes mostram que os ratos
comem a mão do artista.

Maria da Fonte

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017



No perfil definido das manhãs,
nada de marcante a assinalar.

O céu emoldurado dos cabelos,
a cidade emaranhada no rosto,
as horas debruçados no olhar.


E como se não lhe bastasse
a trepidação dos dedos,
ainda há vento para as palavras se fazerem ao mar.

Maria da Fonte

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Salve-se o voo dos pássaros


Asas martelam os gestos,
refrões torneiam os ninhos.

Das palhas soltam-se voos
que se ajustam ao abismo.

É este o rumo dos pássaros,
na pulsação suicida.

De quem procura na queda
um incentivo à vida.

Mais leve, o dia os habita
Nos longos voos do céu.

Feitos pedaços de estrelas,
da caixa que alguém partiu.

Maria da Fonte

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Agora as palavras demoram nos dedos


Agora
o disfarce foge-me do rosto,
esfuma-se a máscara com que me adiava.
Fica-me a lua
esquecida nos olhos
a deixar ver as frinchas desatadas.

Agora
ando só pelo avesso das coisas
na urgência secreta de sair da parede.
Fica-me a ausência
do retrato nas mãos
e o medo obsceno a tocar-me ao de leve.

Agora
as palavras demoram nos dedos
e na ondulação longa dos sentidos.
Fica-me o outono
preso nos cabelos
e as folhas secas a almofadar os trilhos.

Maria da Fonte
Imagem da internet