terça-feira, 6 de outubro de 2020

 


Depois de tudo,

servi-me a data

com pompa e circunstância.

 

E ajudai-me a diluir este remorso

de ter esquecido o lugar e a hora exata.

 

Não soube amar os gestos nas fachadas.

Valho-me de retalhos de nuvens,

 supostamente incauta.

 

Nos arredores de mim,

que caia a noite como uma nódoa solta.

 

Maria da Fonte

Imagem retirada da internet

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

 


Se o coração soubesse

que o poema me deixa sem chão,

que os olhos me fogem

e as horas rebolam

sem fauna ou flora.

 

Se o coração soubesse

que os dias me queimam

nas costuras das mãos

e a pele desprende

dos dedos de corda.

 

Se o coração soubesse,

parava-me agora.

 

Maria da Fonte

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

 

Dê palpites sobre a linha,

o padrão e a textura,

o clima, se quiser.

 

Até à última prova,

proteste o ponto corrido,

o decote do vestido

e o forro, quando o tiver.

 

Ponha defeitos em tudo,

a cambraia, a seda pura,

a viscose mal cosida

e o fio curto a prender.

 

Trace o tamanho do pano,

a roda larga ao vestido,

o rodopio do vento

sem uma fibra sequer.

 

Que, ainda que não permita,

há quem num pano de pó

abafe por completo

as pernas de uma mulher.


Maria da Fonte

Imagem retirada da internet

 

 

 

domingo, 30 de agosto de 2020

 



Ainda que o teorema determine

que o cálculo tem por base

 dois princípios cruciais na operação,

há olhos que não encontram a área de uma figura

e cores que se incendeiam

e embatem como facas

nas falhas do coração.

 

Maria da Fonte

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

 


Palavras em linha reta

numa estrutura bem simples,

com materiais sustentáveis

e ampla ventilação.

 

Quatro pilares tracejados

a deixar cortar o vento

e uma janela entreaberta

para abreviar o medo

que atravessar a razão.

 

Uma porta desarmada

na moldura habitual

e uma varanda que beba

o disparo de um coração.

 

Fica o projeto em conta

e muito funcional.

 

Maria da Fonte

 

segunda-feira, 27 de julho de 2020




e humedece-me os dedos com que agarro as folhas
e avanço de improviso
pelos socalcos do livro.

Não preciso de me esconder atrás das sombras,
nem de amordaçar o vento que não seguro,

basta que a pressa dos olhos
leve nas mãos os ramos

e deste ângulo do olhar
eu prenda tudo.

Maria da Fonte


segunda-feira, 1 de junho de 2020



Era um quarto num rés do chão
muito acanhado,
de parede em pladur
e piso revestido,
quebrado por uma organza cinza fosco
e o tímido sorriso de um postigo.

Em todos os placares da minha rua,
era um quarto desgarrado
onde imagino
uma janela aberta sobre o peito
e o olhar sem tamanho

do inquilino.

Maria da Fonte