quarta-feira, 19 de abril de 2017

Às horas mortas


Às horas mortas,
desces, pé ante pé, o labirinto das folhas gastas de outono.
Estudas a desertificação dos dedos,
procuras-te na erosão genética da espera.

Enquanto não chegas,
enterras nas mãos o pensamento,
deixas abrir no peito uma cratera.


Maria da Fonte

terça-feira, 21 de março de 2017

Reservo o nosso lugar com poemas



Para te afastar a noite do rosto,
todos os dias chego pela manhã.

Depois, meu amor, calço-te os sapatos
e peço-te que me esperes do lado de lá das searas.

Então, reservo o nosso lugar com poemas,
só para suspender o tempo.

Maria da Fonte

sexta-feira, 10 de março de 2017

Enquanto regresso à sombra da tarde



Porque acredito na queda do silêncio,
ajusto a voz à miragem das setas.

Pressinto os dedos de Darwin a levantar o mundo.

E, enquanto regresso à sombra da tarde,
procuro na ciência amontoada nas ruas
a dosagem alquímica das fórmulas secretas.

Há de alterar-se a direção prescrita
e a ascensão penosa de quem fica.

Maria da Fonte

Dia da mulher


Pestanas, mais extensões,
Tudo de matéria-prima,
Umas quantas injeções.
Levo dez quilos em cima.

O corpo é meu passaporte,
Ponho, tiro, estico, mudo.
Para equilibrar a sorte,
Na roleta jogo tudo.

E lanço a bola por perto,
Na busca dum ideal.
É um número, por certo,
Que, por azar, me fica mal.

Fico redonda naquilo,
Um tecido engomado.
Juro-vos que é do vestido
Que me ficou entranhado.

Lavo três vezes a quente,
Dou-lhe com o ferro mais três.
Se o tecido é resistente,
O mal é de quem o fez.

E se não posso pagar
Esta minha condição,
Ser amante e destilar
Nas mãos de quem é patrão?

E cabe em qualquer quadrado
Porque é quadrado também.
Não tira de nenhum lado,
Nem põe mais do que o que tem.

Maria da Fonte

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Há um comércio de sonhos na minha escola


Há um comércio de sonhos na minha escola.
Daí, nada de novo a assinalar.
Nascemos com esta veia rasgada
para o negócio, e , ainda que os homens sejam feitos de vento,
as palavras saem da alma de cada um sempre de rosto lavado.

Apinham-se vultos no átrio. Fazem-se saldos nos dedos.
Há euforia nas salas. A última feira do ano.

Andávamos tão cansados de silêncios.
Não me ocorre que alguém me tenha dito que viria.
Talvez descuido. Talvez, lá onde o mundo nos livra do seu peso,
a mercadoria seja outra.
Os homens só têm um dia por ano para estas extravagâncias.

Houvesse tempo para eu lhes falar da composição de
cada artigo, e decerto não voltariam mais às grandes superfícies.

De quantas escolhas degoladas é feito
o corredor que atravesso?

Maria da Fonte
Imagem da internet

sábado, 11 de fevereiro de 2017



Foi por ti
que eu gastei as pedras, estendi sorrisos
na face do tempo, dei às palavras um lado de ave
e, às escondidas, escrevi o vento.

Foi por ti
que eu dividi o céu, poli os raios de sol
em mil setas, moldei silêncios curvados de arcos
e, sem disfarces, imitei poetas.


E foi por ti
que me exilei no verso, estendi os braços,
pus o céu tangente e, sem prender
pássaros nem rosas,


quis-te aprisionado em mim para sempre.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Talvez estar seja o melhor começo


Gosto de pensamentos quebrados nas esquinas,
sem a mística efusiva do meu canto.

O tempo recua na falésia,
tudo em mim só pertence, por enquanto.

Arranjo o olhar no voo que perpassa
sobre o perfil da tarde quase morna.
Dou um novo rumo ao peito e sou pássaro.

É tão leve o pensamento, que se entorna.

Ser, em qualquer lugar, é discutível.
Não me intimida a rota onde desço.
Assisto à passagem, a tarde é calma.

Talvez estar seja o melhor começo.