segunda-feira, 27 de julho de 2020




e humedece-me os dedos com que agarro as folhas
e avanço de improviso
pelos socalcos do livro.

Não preciso de me esconder atrás das sombras,
nem de amordaçar o vento que não seguro,

basta que a pressa dos olhos
leve nas mãos os ramos

e deste ângulo do olhar
eu prenda tudo.

Maria da Fonte


segunda-feira, 1 de junho de 2020



Era um quarto num rés do chão
muito acanhado,
de parede em pladur
e piso revestido,
quebrado por uma organza cinza fosco
e o tímido sorriso de um postigo.

Em todos os placares da minha rua,
era um quarto desgarrado
onde imagino
uma janela aberta sobre o peito
e o olhar sem tamanho

do inquilino.

Maria da Fonte


sexta-feira, 29 de maio de 2020



Por um fio de luz
desci pouco afinada.

Nada entendia então de partituras,

nem de acordes maiores às varandas,
em horas paradas
e pautas quase puras.


Na timidez, improvisei um grave,
sem o detalhe preciso da altura.

E nos soluços afinei a voz,
acomodei-me discretamente às cordas,

puxei a medo a linha do horizonte,

reajustei-a depois à tessitura.



Maria da Fonte

Imagem retirada da Internet 


sábado, 9 de maio de 2020




Não sei a que livros roubei
as âncoras   e os abraços, que barco eu desenhei
no orvalho do meu rosto e o que agarrei aos mastros.

Não sei que pilhagens fiz e onde ajustei o perigo,
em que margens atraquei, que palavras contornei,
que carga trouxe comigo.

Não sei se foram os ventos ou as correntes primeiro,
nem sei se o barco que fiz me deu cadastro sequer
de pirata ou marinheiro.

Maria da Fonte

Imagem retirada da Internet

Só pode ser um poema

Lanço ao mar o poema, sem nomear capitão,
sem mapa que amanhe as ondas
e as premissas da razão.

Largo-o em alto-mar, desenho-lhe a aflição.
Dou um bote a cada homem e o esboço de uma rota
 sem nenhuma convenção.

Uns contestam os lugares,
outros ajustam-se a tudo.

Só pode ser um poema,
se a bordo for todo o mundo

que couber na minha mão.

Maria da Fonte
Imagem da Internet

domingo, 3 de maio de 2020

Mãe




Mãe, este desarticular de dedos
que me deixa de braços pendurados
e cálculos agarrados à garganta,

esta sensação de dor que mal descrevo,


este pavor tremendo, mãe, que tenho
de te deixar
as mãos sujas de medo.

Maria da Fonte

sexta-feira, 24 de abril de 2020



Parecia-me tão pequeno o céu
na sombra asseada
do pavimento da pele.

E agora, nas paredes impermeáveis da casa
onde os olhos chegam de longe
e o corpo se coíbe,
eu quase me perco nele.

Maria da Fonte