domingo, 7 de maio de 2017

Outras mãos te forjaram, minha mãe


Para te devolver o busto que me deste,
fiz-me escultor uma vida.

Dobrei segredos, soldei palavras ditas,
moldei histórias em relevo parcial.

Dar-te forma vertical e pés de âmbar,
entre o abstrato e as linhas definidas.

Misturei técnicas, figuras, materiais.
Quis-te Pietà, versão mais atual.

Mas uma só distração, um filamento,
fundiu-se o bronze, vergaste ponta a ponta.

Restam-me as palavras de vidro que te dei,
trancou-se a porta que me levava ao teu rosto.


Outras mãos te forjaram, minha mãe.

Maria da Fonte

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Vala comum


Batem as horas no centro da cidade,
A vida ampliada num cartaz.
O tempo a leilão. Num tom sagaz,
a dimensão exata da verdade.

Amontoam-se os dedos de metal.
Gesticula uma mão, ganhando espaço.
O outro pede pão, estica o braço.
Não quer comprar, não tem qualquer aval.

-É preciso afastar tão má figura,
Lá onde a memória não existe.
Dizia-me uma velha, dedo em riste,
E eu, ao canto, fazia a cobertura.

-Quem dá? Não há tempo que gaste
A pink star que trazem aí pendente.
Levantam-se, mais airosas, as da frente.
Gritava ela: o pobre que se afaste.

À porta, ali mesmo do meu lado,
Na superfície rugosa do abandono,
Acena-me um rapaz cheio de sono,
De pernas bambas e olhar esfarrapado.


E, à meia-hora, a confusão começa.
O rapaz nada entende, considero.
Diz da soleira: eu quero, eu quero, eu quero.
Mas a velha, injuriada: ora essa!

Já ia em cem, na voz do leiloeiro.
Era esta a hasta do seu maior sucesso.
Vender o tempo, no cartaz expresso,
Ia trazer-lhe rios de dinheiro.


Mais alto, a velha: agora, cento e vinte.
Nuns berros estridentes, viscerais,
Que o diamante na mão valia mais.
Soletrava irada o seu contribuinte.

O rapaz à soleira, mais desperto,
O pobre ao fundo, enrolado entre a gente,
Ouvem da velha aquela voz estridente:
Quem disse que o leilão estava aberto?


Sai o rapaz, sai o pobre e um a um.
O leiloeiro do tempo abre jornais.
A velha grita: recibos, não passais!
Em frente outro cartaz, vala comum.


Maria da Fonte

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Às horas mortas


Às horas mortas,
desces, pé ante pé, o labirinto das folhas gastas de outono.
Estudas a desertificação dos dedos,
procuras-te na erosão genética da espera.

Enquanto não chegas,
enterras nas mãos o pensamento,
deixas abrir no peito uma cratera.


Maria da Fonte

terça-feira, 21 de março de 2017

Reservo o nosso lugar com poemas



Para te afastar a noite do rosto,
todos os dias chego pela manhã.

Depois, meu amor, calço-te os sapatos
e peço-te que me esperes do lado de lá das searas.

Então, reservo o nosso lugar com poemas,
só para suspender o tempo.

Maria da Fonte

sexta-feira, 10 de março de 2017

Enquanto regresso à sombra da tarde



Porque acredito na queda do silêncio,
ajusto a voz à miragem das setas.

Pressinto os dedos de Darwin a levantar o mundo.

E, enquanto regresso à sombra da tarde,
procuro na ciência amontoada nas ruas
a dosagem alquímica das fórmulas secretas.

Há de alterar-se a direção prescrita
e a ascensão penosa de quem fica.

Maria da Fonte

Dia da mulher


Pestanas, mais extensões,
Tudo de matéria-prima,
Umas quantas injeções.
Levo dez quilos em cima.

O corpo é meu passaporte,
Ponho, tiro, estico, mudo.
Para equilibrar a sorte,
Na roleta jogo tudo.

E lanço a bola por perto,
Na busca dum ideal.
É um número, por certo,
Que, por azar, me fica mal.

Fico redonda naquilo,
Um tecido engomado.
Juro-vos que é do vestido
Que me ficou entranhado.

Lavo três vezes a quente,
Dou-lhe com o ferro mais três.
Se o tecido é resistente,
O mal é de quem o fez.

E se não posso pagar
Esta minha condição,
Ser amante e destilar
Nas mãos de quem é patrão?

E cabe em qualquer quadrado
Porque é quadrado também.
Não tira de nenhum lado,
Nem põe mais do que o que tem.

Maria da Fonte

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Há um comércio de sonhos na minha escola


Há um comércio de sonhos na minha escola.
Daí, nada de novo a assinalar.
Nascemos com esta veia rasgada
para o negócio, e , ainda que os homens sejam feitos de vento,
as palavras saem da alma de cada um sempre de rosto lavado.

Apinham-se vultos no átrio. Fazem-se saldos nos dedos.
Há euforia nas salas. A última feira do ano.

Andávamos tão cansados de silêncios.
Não me ocorre que alguém me tenha dito que viria.
Talvez descuido. Talvez, lá onde o mundo nos livra do seu peso,
a mercadoria seja outra.
Os homens só têm um dia por ano para estas extravagâncias.

Houvesse tempo para eu lhes falar da composição de
cada artigo, e decerto não voltariam mais às grandes superfícies.

De quantas escolhas degoladas é feito
o corredor que atravesso?

Maria da Fonte
Imagem da internet