sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Há um comércio de sonhos na minha escola


Há um comércio de sonhos na minha escola.
Daí, nada de novo a assinalar.
Nascemos com esta veia rasgada
para o negócio, e , ainda que os homens sejam feitos de vento,
as palavras saem da alma de cada um sempre de rosto lavado.

Apinham-se vultos no átrio. Fazem-se saldos nos dedos.
Há euforia nas salas. A última feira do ano.

Andávamos tão cansados de silêncios.
Não me ocorre que alguém me tenha dito que viria.
Talvez descuido. Talvez, lá onde o mundo nos livra do seu peso,
a mercadoria seja outra.
Os homens só têm um dia por ano para estas extravagâncias.

Houvesse tempo para eu lhes falar da composição de
cada artigo, e decerto não voltariam mais às grandes superfícies.

De quantas escolhas degoladas é feito
o corredor que atravesso?

Maria da Fonte
Imagem da internet

sábado, 11 de fevereiro de 2017



Foi por ti
que eu gastei as pedras, estendi sorrisos
na face do tempo, dei às palavras um lado de ave
e, às escondidas, escrevi o vento.

Foi por ti
que eu dividi o céu, poli os raios de sol
em mil setas, moldei silêncios curvados de arcos
e, sem disfarces, imitei poetas.


E foi por ti
que me exilei no verso, estendi os braços,
pus o céu tangente e, sem prender
pássaros nem rosas,


quis-te aprisionada em mim para sempre.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Talvez estar seja o melhor começo


Gosto de pensamentos quebrados nas esquinas,
sem a mística efusiva do meu canto.

O tempo recua na falésia,
tudo em mim só pertence, por enquanto.

Arranjo o olhar no voo que perpassa
sobre o perfil da tarde quase morna.
Dou um novo rumo ao peito e sou pássaro.

É tão leve o pensamento, que se entorna.

Ser, em qualquer lugar, é discutível.
Não me intimida a rota onde desço.
Assisto à passagem, a tarde é calma.

Talvez estar seja o melhor começo.

domingo, 8 de janeiro de 2017

Manda-me outro lado da vida


Na terra dos outros,
calçam-nos sapatos alcatroados,
recortam-nos horas pelas costuras,
ajustam-nos tamanhos corriqueiros.

Uma casa de pedra, uma mesa redonda,
um chá que nos espera.

Se pela janela o infinito traz forma de tudo,
correm-se as cortinas.

A vida há de caber num fio de terra.

E, ainda que num abraço demorado,
treina-se o que quero.

Na terra dos outros,
Se eu fosse só eu, morria de desespero.

Maria da Fonte
Kumi Yamashita, as luzes e as sombras

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

De qualquer forma eu vou


De qualquer forma eu vou,
habita-me nas asas um roteiro povoado de lonjuras.
Ainda que os olhos se rendam a precipícios,
depressa o pensamento aprende a ser poesia.

Podes ciscar-me o ninho nessa espera,
a hora vai larga e tudo em mim se demora.

Inventa-me legendas, emenda-me retalhos,
desvia-te, se quiseres, mas deixa passar o poema.
Define a rota e tira da gaiola que entenderes a nostalgia.


Neste intervalo de tudo, deixa-me ser liberdade,
Lembra-te de Harper Lee, «não mates a cotovia».


Não dói quase nada agora
a indiferença de ficar inteira ou pela metade.

Maria da Fonte

domingo, 18 de dezembro de 2016

O Natal começa todos os dias amanhã


Leva com ele o irmão mais novo. Sobe num passo apressado. Talvez todo o tempo do mundo não chegasse para mostrar o Natal do outro lado.
Ao cimo da montanha, olha de frente os homens mascarados de soldados. Entre o silêncio das coisas transparentes, jura ter visto ao longe os três reis magos. E, como se quisesse acompanhá-los, estende-se entre os ramos de medronhos. Um clarão no céu abre a janela. Em cada bomba, uma rajada de sonhos...

Os dedos dos meninos seguram cânticos, a lua pousa serena lá no céu,
pela encosta a vida num ir lento.

A noite é o irmão mais velho que partiu.


Maria da Fonte

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

A propósito do Manifesto Anti-Dantas

Posto que Almada mentiu no manifesto que fez,
em prol do Dantas, eu manifesto-me outra vez.

O Dantas não é cigano, nem burro, nem impotente!
Dou por certo, não me engano. É a nata da nossa gente.
Burro? Nunca! O Dantas? Nunca!
Um mustang americano!
O Dantas é um selvagem… mas nem burro, nem cigano.

Se há passadeira vermelha, se há Hollywood, se há cinema,
o Dantas, a quatro tempos, avança e entra na arena.
Se há amazonas, melhor. Sinal ao canto direito.
O Dantas escreve de cor. Garanto, tem muito jeito.
O Dantas escreve romances em poses, feitas à pressa,
que servem qualquer pronome. A gramática não interessa.
Alcoforado? Podia! O Dantas escreve o que quer.
Na penumbra do mural,
o Dantas de a a z não se cansa de escrever.
Se há cavaleiro, há romance. Há romance decidido.
O Dantas é tão versátil, que escreve em qualquer sentido.
Mestre de Avis, o herói. Romance de cavalaria.
Ainda que digam por aí,
O Dantas? Quem o diria?!


É falso! Juro, é falso! Os concubinos? Nunca! Não!
O Dantas só quer escrever. Está de atalaia em murais,
na busca de inspiração.
Um homem tão cuidadoso. Por rotina, acorda às tantas
e põe like em todo o lado.
Se o Dantas não me quiser,
Eu quero parir um Dantas!


O Dantas é um discóbolo. Perfeito! Isso lhe basta.
Entende de modas. Se entende!
Deixou crescer, para espanto, uma vassoura já gasta.
No rosto, fica-lhe bem. No corpo, não há sinal.
Ainda há quem diga por aí que o Dantas se veste mal.


O Dantas não tem ceroulas. Estilo sobremaneira.
Espreitem o mural dele.
Sabemos, chega-lhe bem uma folha de oliveira.
E se o Dantas tem na cabeça duas asas de alcatraz,
é o turbante, com certeza, das viagens
que ele faz.


O Dantas é um ricaço. Digo e sei o que digo.
Uma vivenda, piscina, três carros topo de gama.
O Dantas é bom partido.
O mural não engana.


O Dantas é um poeta! Um cavalheiro! Um senhor!
O Dantas é um rodizio! Um rodízio do melhor!
E se o Dantas fica por aqui, são estas cordas vocais.
O Dantas é …O Dantas é…
Não posso! Não posso mais!

Maria da Fonte