domingo, 8 de janeiro de 2017

Manda-me outro lado da vida


Na terra dos outros,
calçam-nos sapatos alcatroados,
recortam-nos horas pelas costuras,
ajustam-nos tamanhos corriqueiros.

Uma casa de pedra, uma mesa redonda,
um chá que nos espera.

Se pela janela o infinito traz forma de tudo,
correm-se as cortinas.

A vida há de caber num fio de terra.

E, ainda que num abraço demorado,
treina-se o que quero.

Na terra dos outros,
Se eu fosse só eu, morria de desespero.

Maria da Fonte
Kumi Yamashita, as luzes e as sombras

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

De qualquer forma eu vou


De qualquer forma eu vou,
habita-me nas asas um roteiro povoado de lonjuras.
Ainda que os olhos se rendam a precipícios,
depressa o pensamento aprende a ser poesia.

Podes ciscar-me o ninho nessa espera,
a hora vai larga e tudo em mim se demora.

Inventa-me legendas, emenda-me retalhos,
desvia-te, se quiseres, mas deixa passar o poema.
Define a rota e tira da gaiola que entenderes a nostalgia.


Neste intervalo de tudo, deixa-me ser liberdade,
Lembra-te de Harper Lee, «não mates a cotovia».


Não dói quase nada agora
a indiferença de ficar inteira ou pela metade.

Maria da Fonte

domingo, 18 de dezembro de 2016

O Natal começa todos os dias amanhã


Leva com ele o irmão mais novo. Sobe num passo apressado. Talvez todo o tempo do mundo não chegasse para mostrar o Natal do outro lado.
Ao cimo da montanha, olha de frente os homens mascarados de soldados. Entre o silêncio das coisas transparentes, jura ter visto ao longe os três reis magos. E, como se quisesse acompanhá-los, estende-se entre os ramos de medronhos. Um clarão no céu abre a janela. Em cada bomba, uma rajada de sonhos...

Os dedos dos meninos seguram cânticos, a lua pousa serena lá no céu,
pela encosta a vida num ir lento.

A noite é o irmão mais velho que partiu.


Maria da Fonte

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

A propósito do Manifesto Anti-Dantas

Posto que Almada mentiu no manifesto que fez,
em prol do Dantas, eu manifesto-me outra vez.

O Dantas não é cigano, nem burro, nem impotente!
Dou por certo, não me engano. É a nata da nossa gente.
Burro? Nunca! O Dantas? Nunca!
Um mustang americano!
O Dantas é um selvagem… mas nem burro, nem cigano.

Se há passadeira vermelha, se há Hollywood, se há cinema,
o Dantas, a quatro tempos, avança e entra na arena.
Se há amazonas, melhor. Sinal ao canto direito.
O Dantas escreve de cor. Garanto, tem muito jeito.
O Dantas escreve romances em poses, feitas à pressa,
que servem qualquer pronome. A gramática não interessa.
Alcoforado? Podia! O Dantas escreve o que quer.
Na penumbra do mural,
o Dantas de a a z não se cansa de escrever.
Se há cavaleiro, há romance. Há romance decidido.
O Dantas é tão versátil, que escreve em qualquer sentido.
Mestre de Avis, o herói. Romance de cavalaria.
Ainda que digam por aí,
O Dantas? Quem o diria!


É falso! Juro, é falso! Os concubinos? Nunca! Não!
O Dantas só quer escrever. Está de atalaia em murais,
na busca de inspiração.
Um homem tão cuidadoso. Por rotina, acorda às tantas
e põe like em todo o lado.
Se o Dantas não me quiser,
Eu quero parir um Dantas!


O Dantas é um discóbolo. Perfeito! Isso lhe basta.
Entende de modas. Se entende!
Deixou crescer, para espanto, uma vassoura já gasta.
No rosto, fica-lhe bem. No corpo, não há sinal.
Ainda há quem diga por aí que o Dantas se veste mal.


O Dantas não tem ceroulas. Estilo sobremaneira.
Espreitem o mural dele.
Sabemos, chega-lhe bem uma folha de oliveira.
E se o Dantas tem na cabeça duas asas de alcatraz,
é o turbante, com certeza, das viagens
que ele faz.


O Dantas é um ricaço. Digo e sei o que digo.
Uma vivenda, piscina, três carros topo de gama.
O Dantas é bom partido.
O mural não engana.


O Dantas é um poeta! Um cavalheiro! Um senhor!
O Dantas é um rodizio! Um rodízio do melhor!
E se o Dantas fica por aqui, são estas cordas vocais.
O Dantas é …O Dantas é…
Não posso! Não posso mais!

Maria da Fonte


quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Outros voos


Semeio nos teus olhos
voos largos,
sopro baixinho as sombras
das gaiolas.
Tu sabes bem que há danças
que se perdem
quando braços se agarram
a memórias.


Maria da Fonte

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

No amor espero por ti


Viajo dentro de mim
faço o check-in da vaga

no amor espero por ti
na razão não faço escala

puxo a cortina, reparo
tudo me foge por certo

fica ligeira a viagem
se fizer voo direto

ponho o cinto, adormeço
no tiquetaque sonoro

no amor espero por ti,
na razão não me demoro


Maria da Fonte

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

O palhaço


O palhaço
vive no parapeito da palavra,
enquanto se veste de lilás e reinventa o amor.

O palhaço
tropeça em todos os lugares e nunca retrocede.
Diz destinos de cor,
sabe medir distâncias e construir
alicerces no rosto de cada qual.

O palhaço
sai de cena a trautear um canto
numa espécie de oração universal.

As palmas. Só as palmas se ouvem entretanto.

Maria da Fonte