segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

O palhaço


O palhaço
vive no parapeito da palavra,
enquanto se veste de lilás e reinventa o amor.

O palhaço
tropeça em todos os lugares e nunca retrocede.
Diz destinos de cor,
sabe medir distâncias e construir
alicerces no rosto de cada qual.

O palhaço
sai de cena a trautear um canto
numa espécie de oração universal.

As palmas. Só as palmas se ouvem entretanto.

Maria da Fonte

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Deus viajou


Eras feliz quando o arroz caía do céu
e as mãos de Deus talhavam relâmpagos
no interior da terra.

No dia em que as nuvens desceram,
e tu alteaste tacões para espreitar
o lado mais secreto do pensamento,
avistaste searas.

Se sobrepusesses as linhas da mão em cordilheira,
depressa chegavas ao Olimpo.
Deus havia de andar por perto,
e tu agradecias, como bom discípulo, o teu sustento.

(tinhas tantas manhãs dentro de ti,
e no teu peito cabiam histórias pacientes)

Deus viajou, dizem os outros.
E atiram-te palavras como grãos.

O tempo gastou-te os dentes.

Maria da Fonte
Imagem retirada da internet

domingo, 20 de novembro de 2016

Destino



É a morada dos limpos que se acende
na retina, se entrevê nas linhas retas,
nas curvas se dissemina.
É a voz rouca das portas, cheia de correntes
de ar, que amacia as palavras
e que as deixa passar.
É a textura dos dedos que se estende
de repente na projeção de silêncios
que te atingem mortalmente.
É o código postal que te leva cego e mudo
pelas estradas onde a vida
já fica longe de tudo.

Maria da Fonte
Imagem: Salvador Dali - Destino

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Contracorrente


Um dia
vincada de eras
e já caída de bruços,
o meu coração tem asas,
não cabe nos dias justos.

Um dia
contracorrente
e os meus dedos outono,
os meus olhos são distância,
talvez mais sonho que sono.

Um dia
em véspera de nada
e as horas soltas paisagem,
o meu corpo é fronteira,
a minha alma viagem.

Maria da Fonte
Imagem da internet

sábado, 22 de outubro de 2016

Deixa-me ser




Pensas-me virada do avesso
quando costuro o poema
e procuras nas linhas do meu corpo
o verso preso.

Alinhavas cada retalho de mim
como se eu fosse um caso perdido.
Tu
que no poema vives paredes-meias
comigo.

Maria da fonte
Imagem da internet

sábado, 15 de outubro de 2016

Rotina



Despejas um gemido na mesa.
Quantas manhãs cabem nos teus olhos?

Procuras nas mãos o rascunho do mundo,
os teus dedos trémulos peregrinam vertiginosamente a cartilha.
Arrancas da garganta lápis,
mas, por temeres rasuras,
aportas nos dentes medos.

Podias ser uma ilha.

Deixas cair os braços na direção da morte
E nem um traço.
As ruas arrastam-te com outros ao sol-posto,
e tu não saltas com medo de perder o equilíbrio das horas.

Depois de tudo, é sempre
inverno no teu rosto.

Maria da Fonte
Imagem: «FADESTINO»
Rosa Maria Duarte