domingo, 11 de janeiro de 2026

                                                                     



                                                                                                           Mulher,

assim calibrada,

com bloco de notas,

tambor e botões,

 

assim magnética,

de motor giratório

e custo reduzido,

 

assim ajustada,

de corrente contínua

e grandes precisões,

 

és a voz sem a vez

e um lanço de escadas,

para duas profissões.

 

Maria da Fonte

Imagem retirada da Internet 



terça-feira, 23 de dezembro de 2025

 



Havia ainda um último fósforo

para acender as palavras

e abrir uma porta para o mundo.

 

Mas as leis sabem a pólvora,

as metáforas

explodem nas mãos

e os homens lançam por terra os dedos.

 

O Natal

chega depois de tudo.


Maria da fonte

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

 



São cogumelos abertos,

os beijos do meu amor.

Nascem em troncos de outono,

como nascem as formigas,

e, em dias de muita chuva,

abrigam o meu senhor.

 

Salteados como lâminas

nas margens do rio Tormes,

os beijos do meu amor,

livres, sem dono marcado,

viajam na minha boca

 e na outra boca ao lado.

 

Maria da Fonte

terça-feira, 25 de novembro de 2025

 

À noite,

escorrem-me pelas paredes

pensamentos carregados de pelo,

orelhas pontiagudas

e finas membranas entre os dedos.

 

À noite,

ombro a ombro comigo,

quando nem o coração

enche o meu quarto vazio.


 Maria da Fonte

sábado, 15 de novembro de 2025

 

 

Não importa à liberdade

o peso da tua roupa,

a tempestade da voz,

ou o olhar visceral.

 

Que a liberdade não traz

os números de uma balança,

nem o veludo das formas,

nem lâminas luminosas,

nem ouvidos de metal.

Maria Da Fonte

Monumento à Liberdade, de Jorge Vieira



sexta-feira, 14 de novembro de 2025

 

Para a velhice,

fiz os pássaros mais rasos.

 

Sou quase nuvem,

e há quem diga por aí que agora

só preciso de erguer uma gaiola.


Maria da Fonte

sábado, 11 de outubro de 2025

 


 

Há saudades que ali ficam,
presas às tintas do muro.

São beijos cheios de frio
que anoitecem como bússolas
e moram dentro de tudo.

Há saudades que nos chamam
e nos param de repente,

que chegam como um combate
sem contornos definidos
e nos moldam lentamente.

 

Maria da Fonte