quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Um sonho humilhado















Deslizo em mim, tal curso de um rio
espargido em desejos transparentes.
Trago nas veias o asseio
da branda inocência.
Regresso ao ventre da candura,
mergulho na balsâmica esperança
de um mundo pensado.
Sou vertigem cingida por um mar encantado,
o olhar absorto de um sonho… sonhado.

Desperto, sufoco no viscoso real,
onde os dias gotejam ao ritmo da dor.
O sonho enjoou, o mar regurgitou, a terra morreu…
Aqui, tu e eu, um olhar incolor.
Um ontem sem rosto, um hoje calado, um amanhã cadáver…

Um sonho humilhado.

Maria da Fonte
Imagem da internet

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Insurreição



Esperanças de estrelas tatuadas,
destinos pendurados em filas colossais,
sorrisos encalhados,
olhares desertos,
lágrimas saciando gulas,
vidas para sempre adiadas,
ódios estrebuchando desesperos,
ganâncias ceifadas de afetos,
campos cobertos de dor.



São estes os caminhos que cruzamos,
onde tu te pavoneias entre nós,
mas eu resisto, prometo que resisto.
Que a minha mão direita
caia seca, se o meu pavor
quebrar a minha voz.

Maria da Fonte
Imagem da internet


sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Isto nos basta















Meu coração era uma página em branco.
Foi à escola pela primeira vez.
Começou com pequenos rabiscos,
Indecifráveis, para os outros, talvez.
Para mim, eram histórias perfeitas,
Onde tudo brilhava com primor.
Para vós(eu sei) não era nada;
Para mim, a primeira história de amor.

Depois tive um caderno bem maior,
Onde uma mancha vermelha se vincava.
E eu, orgulhosa, a todos a mostrava.
Começava a complicar-se o meu amor.
Mas era neste caderno que eu lançava
Os dados da sorte e do azar.
As linhas do caderno, eu dominava,
As margens, um desafio a conquistar.

Já tinha uma coletânea quando chegaste
E me pediste que te deixasse ler.
E tu gostaste…eu sei que tu gostaste,
Mas dei-te tempo para poderes escolher.
Anos mais tarde voltaste a encontrar-me,
Ocasional ou propositadamente.
Vinhas de lápis na mão, efervescente,
Para escreveres comigo a nossa história.

E guardamos tudo isso na memória,
Como se tu fosses o caderno e eu a pasta.
Para viver o nosso amor, isto nos basta:
Uma imagem, para tantos, irrisória.

Maria da Fonte
Imagem da intermete

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Não














E os abutres chegam como balas
trespassando os cadáveres da desgraça.
Pousam em bandos nas margens da miséria,
fazem o cerco à fome que ali passa.
Bicam os ossos da carne do outrora,
soltam as garras, afiam a arrogância.
Ingurgitados, num ápice, vão embora…
Tudo em nome da salvação (ou da ganância).


Sucedem-se uns aos outros como larvas,
a devorar os corpos putrefeitos.
Os movimentos dos vermes são perfeitos,
só as horas, infindáveis, são amargas.

E o vaivém dos abutres embala a dor
dos que se deixam comer tão facilmente.
Galardoam-se uns aos outros, solenemente,
e os mortos assistem, sem pudor.

Que noite pode ocultar tal ousadia?
Que dia pode lavar tanta ambição?
Que Terra pode girar sem haver dia?
Que gente pode morrer sem dizer NÃO?




Texto: Maria da Fonte
Imagem: birdstrikepirum.blogspot.com

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Nos meandros da loucura

















Dizem-me louca por desnudar a alma,
deambular por aí grandes monólogos.
E eu olho-os debaixo de mim, assim fugaz...
tão indiferente, tão distante, tão serena.
Manietada?! Não sei viver! Não sou capaz!
Antes ser louca, sim, mas ser plena!
Não posso! Não quero! Não sei ser só metade!
Só sei ser eu à margem do senão.
A insânia em constante erupção,
afrontando os preceitos da verdade.
E sei ter asas, ser quadrúpede, rastejante…
dilacerar os dias num instante,
sem talheres, etiquetas…pulcritude.
E o que é a razão, sem a plenitude?
Digam-me lá, detentores da certeza!
É ser bípede, comer a uma mesa…
Julgar-se, quem?! Dono da virtude?!

E vocês sabem lá o que há de mais certo!
Pois… a morte do idiota e do esperto.
Com uma grande diferença, é sabido:
o esperto só viveu a morte;
o idiota morreu por ter vivido.

Texto: Maria da Fonte
Imagem: Mark Freedom