quinta-feira, 9 de agosto de 2018


Ao meu chapéu de aba larga,
regresso sempre que posso,
sem o ajuste das tranças
e o adivinhar do esboço.

Baloiço no fio das horas
e no cheiro longo dos dias.
Levo das manhãs a alma,
e do vento a teimosia.

Sobrevoo a minha sombra
presa à nascente da luz,
na ânsia de encontrar
o sonho que me conduz.

Maria da Fonte
Imagem retirada da internet





quarta-feira, 18 de julho de 2018

Deixa-me morar fora das varandas



Não me empurres as palavras com os dedos,
nem me acordes com os olhos da tua rua.
Deixa-me morar fora das varandas
e ajeitar dentro de mim o coração.

Não te queiras refém das minhas mágoas,
nem te deixes adormecer nos meus medos.

E se alguém te disser que o tempo é certo
e que as horas cabem em qualquer segredo,
não acredites.

Tu sabes que as tardes têm formas

onde só, de vez em quando, nós cabemos.

Maria da Fonte

domingo, 24 de junho de 2018

Há terra na planície da tarde


Que sirva de travão este silêncio
que te atiro feito gume de arma branca

e que recolhas as palavras que te fazem
parar a cada instante que alguém passa.

Porque podes despregar do que te encerra,
procura nos teus passos alavanca.


Há terra na planície da tarde. Muita terra.


Maria da Fonte

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Tac tac tac tac




nas costas da minha mão.
Não é relógio de pulso
nem  bater de coração.
É a máquina, é a linha,
é a voz do meu patrão.

Tac tac tac tac
mais à frente , mais atrás.
Os olhos como faúlhas,
cose que cose, rapaz.

 Tac tac tac tac
já tenho as pernas cansadas.
 Os moldes ficam tão alto,
subo e desço escadas.

Tac tac tac tac
feito um moinho de vento.
Faz-me poeira dos dedos
e nuvem do pensamento.

Tac tac tac tac
abaixo do coração,
onde cabia escondido
mais um pedaço de pão.


Tac tac tac tac
podia ser uma bola
e a baliza esta máquina
que me cose a camisola.

Tac tac tac tac
Tac tac tac tac
Tac tac tac tac
vai batendo sempre, sempre,
como o sol que aqui nasce 
e morre no ocidente.

Maria da Fonte

sexta-feira, 8 de junho de 2018

O mundo é de quem foi capaz de o encher



Pode ser que a noite me disfarce
o olhar e me abra o punho da revolta.

Pois que, no ar cansado da luz, o corpo arrefece.

E, até que o dia se volte a acender,
há tempo para debulhar histórias
e prosseguir até ao ponto mais frio do medo.


O mundo é de quem foi capaz de o encher.

Maria da Fonte



domingo, 3 de junho de 2018




Primeiro, o impossível procurei-o
no perfil das nuvens de algodão.

Sabia o céu de cor.

Depois, o dia envelheceu
e as noites pesavam como chumbo.

A imensidão do mundo é maior,
na minha oblíqua inquietação.

Maria da Fonte

terça-feira, 22 de maio de 2018



Sacudo o vento das mãos, limpo
as sombras dos pés, alago
os olhos de artérias
e o coração de marés.

E que haja mar à minha frente e
um barco que o desmonte, que eu
tenho sonhos e mãos
que agarrem o horizonte!

Maria da fonte

quinta-feira, 29 de março de 2018




Moldas o silêncio das sombras até ao último
sopro do verão.
Ergues a voz rente ao precipício
e qualquer nuvem te levanta do chão.

Ajustas os braços ao destino, mordes
 temporariamente a ilustração.

E eu?

Encalham-me as palavras em quase tudo
e devagar
encolho-me de novo,
pois que o teu voo é a única oração.


Que caiba o teu corpo na geometria do vento.
Mas o peso da consciência, nunca.

NÃO!



Maria da Fonte
Imagem retirada da internet



sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018


De repente,
outro nome me nasce nos teus dentes
e nos teus dedos reparto-me pelo mundo.

É no adejar dos teus braços que me excedo
e com um punhado de beijos
que me arrumo.

Maria da Fonte
Imagem retirada da Internet

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018


Posiciono-me no vértice do pensamento,
procuro comodamente posição.

Cerro o olhar e deixo-me cair,

sem coordenadas,


até ao coração.


Maria da Fonte
Imagem retirada da Internet

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

À noite o tempo tem mais pressa



Um rasgo de mão e acrescentas
um qualquer pormenor ao vaguear.

(À noite o tempo tem mais pressa,
as sombras vestem agasalhos.)

Um rosto espera por ti
e tu desenhas-te sorrateiramente no olhar.

Em fila os dedos guardam novos rumos.

Deixas-te descer pontualmente,
resgatas-te, depois, em cada corrente de ar.

Maria da Fonte

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018


De cima, as curvas dos ratos escondem
figuras de gente. Com efeitos laterais,
nunca visíveis de frente.

Na construção da imagem,
a obra engana o olhar.
Um rato desaparece, outro surge em seu lugar.

Um jeito dado à tela,
e os pequenos roedores, das tocas onde procriam,
emergem aos corredores.

No baloiçar da moldura para um e outro lado,
percebem-se leves traços
de um peito meio inchado.

Estendem-se depois os efeitos do centro
até às beiras e os ratos pincelados
criam famílias inteiras.

E se a tela não cair ,entre uma e outra pista,
detalhes mostram que os ratos
comem a mão do artista.

Maria da Fonte