domingo, 8 de janeiro de 2017

Manda-me outro lado da vida


Na terra dos outros,
calçam-nos sapatos alcatroados,
recortam-nos horas pelas costuras,
ajustam-nos tamanhos corriqueiros.

Uma casa de pedra, uma mesa redonda,
um chá que nos espera.

Se pela janela o infinito traz forma de tudo,
correm-se as cortinas.

A vida há de caber num fio de terra.

E, ainda que num abraço demorado,
treina-se o que quero.

Na terra dos outros,
Se eu fosse só eu, morria de desespero.

Maria da Fonte
Kumi Yamashita, as luzes e as sombras

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

De qualquer forma eu vou


De qualquer forma eu vou,
habita-me nas asas um roteiro povoado de lonjuras.
Ainda que os olhos se rendam a precipícios,
depressa o pensamento aprende a ser poesia.

Podes ciscar-me o ninho nessa espera,
a hora vai larga e tudo em mim se demora.

Inventa-me legendas, emenda-me retalhos,
desvia-te, se quiseres, mas deixa passar o poema.
Define a rota e tira da gaiola que entenderes a nostalgia.


Neste intervalo de tudo, deixa-me ser liberdade,
Lembra-te de Harper Lee, «não mates a cotovia».


Não dói quase nada agora
a indiferença de ficar inteira ou pela metade.

Maria da Fonte