domingo, 16 de julho de 2017

Eu pertenço ao decote dos teus olhos



Nos teus olhos há decotes que me levam
e as horas são mais sólidas assim.

Eu entro no vestido onde me faço, tu pintas-me
entre a ausência e o que há em mim
e finges morrer exausto em cada traço.

Abres os braços para rasgar silêncios, num risco mais preciso
que o meu verso. Amacias o roteiro dos meus dedos,
deixas pulsar nas mãos o universo.

Eu pertenço ao decote dos teus olhos. Faz-me viagem
nas cores do teu pincel. Depois, ao fundo do céu,
pinta-me a morte, como um ditongo de tinta no papel.

Maria da Fonte

Pintura de Mutes

quinta-feira, 22 de junho de 2017


Demoras-te
eternamente nos meus dedos
e eu morro
mais devagar nos que eram teus.

Quando a dor
é um lugar sem dimensão,
não há limite traçado para o adeus.

Maria da Fonte

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Pássaros seguros


Talvez tu saibas que as minhas mãos são muros,
que os muros trazem com eles a essência do abismo.

São grandes os dedos entre trincheiras
e de pedras as palavras que procuro.
Vergam-se, por certo, as fachadas.

O céu cabe inteiro nos telhados,
as janelas são pássaros seguros.

Maria Da Fonte
Imagem retirada da internet

domingo, 4 de junho de 2017


Entrega-se um coração
ao domicílio,
redondo e sem sinais de arritmia.

A bater num compasso
repetido,
entre camadas, em grande acrobacia.

Desce ao fundo do dia
já mais perto,
sobe ao cimo da noite mais além.

Cabe inteiro nas mãos
de quem o quer,
sem resvalar no templo de ninguém.


Maria da Fonte




quinta-feira, 1 de junho de 2017

No fundo das jarras


Este rio, que me chega de gargalo aberto,
fez-me gume de mártir em pés de argila.

Há de levar-me um recado de espera
em poemas de vidro.

E então, quando a água do cais me vaguear nos olhos,
eu serei a imensidão das margens no fundo das jarras.

Maria da Fonte

domingo, 7 de maio de 2017

Outras mãos te forjaram, minha mãe


Para te devolver o busto que me deste,
fiz-me escultor uma vida.

Dobrei segredos, soldei palavras ditas,
moldei histórias em relevo parcial.

Dar-te forma vertical e pés de âmbar,
entre o abstrato e as linhas definidas.

Misturei técnicas, figuras, materiais.
Quis-te Pietà, versão mais atual.

Mas uma só distração, um filamento,
fundiu-se o bronze, vergaste ponta a ponta.

Restam-me as palavras de vidro que te dei,
trancou-se a porta que me levava ao teu rosto.


Outras mãos te forjaram, minha mãe.

Maria da Fonte

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Vala comum


Batem as horas no centro da cidade,
A vida ampliada num cartaz.
O tempo a leilão. Num tom sagaz,
a dimensão exata da verdade.

Amontoam-se os dedos de metal.
Gesticula uma mão, ganhando espaço.
O outro pede pão, estica o braço.
Não quer comprar, não tem qualquer aval.

-É preciso afastar tão má figura,
Lá onde a memória não existe.
Dizia-me uma velha, dedo em riste,
E eu, ao canto, fazia a cobertura.

-Quem dá? Não há tempo que gaste
A pink star que trazem aí pendente.
Levantam-se, mais airosas, as da frente.
Gritava ela: o pobre que se afaste.

À porta, ali mesmo do meu lado,
Na superfície rugosa do abandono,
Acena-me um rapaz cheio de sono,
De pernas bambas e olhar esfarrapado.


E, à meia-hora, a confusão começa.
O rapaz nada entende, considero.
Diz da soleira: eu quero, eu quero, eu quero.
Mas a velha, injuriada: ora essa!

Já ia em cem, na voz do leiloeiro.
Era esta a hasta do seu maior sucesso.
Vender o tempo, no cartaz expresso,
Ia trazer-lhe rios de dinheiro.


Mais alto, a velha: agora, cento e vinte.
Nuns berros estridentes, viscerais,
Que o diamante na mão valia mais.
Soletrava irada o seu contribuinte.

O rapaz à soleira, mais desperto,
O pobre ao fundo, enrolado entre a gente,
Ouvem da velha aquela voz estridente:
Quem disse que o leilão estava aberto?


Sai o rapaz, sai o pobre e um a um.
O leiloeiro do tempo abre jornais.
A velha grita: recibos, não passais!
Em frente outro cartaz, vala comum.


Maria da Fonte

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Às horas mortas


Às horas mortas,
desces, pé ante pé, o labirinto das folhas gastas de outono.
Estudas a desertificação dos dedos,
procuras-te na erosão genética da espera.

Enquanto não chegas,
enterras nas mãos o pensamento,
deixas abrir no peito uma cratera.


Maria da Fonte

terça-feira, 21 de março de 2017

Reservo o nosso lugar com poemas



Para te afastar a noite do rosto,
todos os dias chego pela manhã.

Depois, meu amor, calço-te os sapatos
e peço-te que me esperes do lado de lá das searas.

Então, reservo o nosso lugar com poemas,
só para suspender o tempo.

Maria da Fonte

sexta-feira, 10 de março de 2017

Enquanto regresso à sombra da tarde



Porque acredito na queda do silêncio,
ajusto a voz à miragem das setas.

Pressinto os dedos de Darwin a levantar o mundo.

E, enquanto regresso à sombra da tarde,
procuro na ciência amontoada nas ruas
a dosagem alquímica das fórmulas secretas.

Há de alterar-se a direção prescrita
e a ascensão penosa de quem fica.

Maria da Fonte

Dia da mulher


Pestanas, mais extensões,
Tudo de matéria-prima,
Umas quantas injeções.
Levo dez quilos em cima.

O corpo é meu passaporte,
Ponho, tiro, estico, mudo.
Para equilibrar a sorte,
Na roleta jogo tudo.

E lanço a bola por perto,
Na busca dum ideal.
É um número, por certo,
Que, por azar, me fica mal.

Fico redonda naquilo,
Um tecido engomado.
Juro-vos que é do vestido
Que me ficou entranhado.

Lavo três vezes a quente,
Dou-lhe com o ferro mais três.
Se o tecido é resistente,
O mal é de quem o fez.

E se não posso pagar
Esta minha condição,
Ser amante e destilar
Nas mãos de quem é patrão?

E cabe em qualquer quadrado
Porque é quadrado também.
Não tira de nenhum lado,
Nem põe mais do que o que tem.

Maria da Fonte

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Há um comércio de sonhos na minha escola


Há um comércio de sonhos na minha escola.
Daí, nada de novo a assinalar.
Nascemos com esta veia rasgada
para o negócio, e , ainda que os homens sejam feitos de vento,
as palavras saem da alma de cada um sempre de rosto lavado.

Apinham-se vultos no átrio. Fazem-se saldos nos dedos.
Há euforia nas salas. A última feira do ano.

Andávamos tão cansados de silêncios.
Não me ocorre que alguém me tenha dito que viria.
Talvez descuido. Talvez, lá onde o mundo nos livra do seu peso,
a mercadoria seja outra.
Os homens só têm um dia por ano para estas extravagâncias.

Houvesse tempo para eu lhes falar da composição de
cada artigo, e decerto não voltariam mais às grandes superfícies.

De quantas escolhas degoladas é feito
o corredor que atravesso?

Maria da Fonte
Imagem da internet

sábado, 11 de fevereiro de 2017



Foi por ti
que eu gastei as pedras, estendi sorrisos
na face do tempo, dei às palavras um lado de ave
e, às escondidas, escrevi o vento.

Foi por ti
que eu dividi o céu, poli os raios de sol
em mil setas, moldei silêncios curvados de arcos
e, sem disfarces, imitei poetas.


E foi por ti
que me exilei no verso, estendi os braços,
pus o céu tangente e, sem prender
pássaros nem rosas,


quis-te aprisionado em mim para sempre.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Talvez estar seja o melhor começo


Gosto de pensamentos quebrados nas esquinas,
sem a mística efusiva do meu canto.

O tempo recua na falésia,
tudo em mim só pertence, por enquanto.

Arranjo o olhar no voo que perpassa
sobre o perfil da tarde quase morna.
Dou um novo rumo ao peito e sou pássaro.

É tão leve o pensamento, que se entorna.

Ser, em qualquer lugar, é discutível.
Não me intimida a rota onde desço.
Assisto à passagem, a tarde é calma.

Talvez estar seja o melhor começo.

domingo, 8 de janeiro de 2017

Manda-me outro lado da vida


Na terra dos outros,
calçam-nos sapatos alcatroados,
recortam-nos horas pelas costuras,
ajustam-nos tamanhos corriqueiros.

Uma casa de pedra, uma mesa redonda,
um chá que nos espera.

Se pela janela o infinito traz forma de tudo,
correm-se as cortinas.

A vida há de caber num fio de terra.

E, ainda que num abraço demorado,
treina-se o que quero.

Na terra dos outros,
Se eu fosse só eu, morria de desespero.

Maria da Fonte
Kumi Yamashita, as luzes e as sombras

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

De qualquer forma eu vou


De qualquer forma eu vou,
habita-me nas asas um roteiro povoado de lonjuras.
Ainda que os olhos se rendam a precipícios,
depressa o pensamento aprende a ser poesia.

Podes ciscar-me o ninho nessa espera,
a hora vai larga e tudo em mim se demora.

Inventa-me legendas, emenda-me retalhos,
desvia-te, se quiseres, mas deixa passar o poema.
Define a rota e tira da gaiola que entenderes a nostalgia.


Neste intervalo de tudo, deixa-me ser liberdade,
Lembra-te de Harper Lee, «não mates a cotovia».


Não dói quase nada agora
a indiferença de ficar inteira ou pela metade.

Maria da Fonte