quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Deus viajou


Eras feliz quando o arroz caía do céu
e as mãos de Deus talhavam relâmpagos
no interior da terra.

No dia em que as nuvens desceram,
e tu alteaste tacões para espreitar
o lado mais secreto do pensamento,
avistaste searas.

Se sobrepusesses as linhas da mão em cordilheira,
depressa chegavas ao Olimpo.
Deus havia de andar por perto,
e tu agradecias, como bom discípulo, o teu sustento.

(tinhas tantas manhãs dentro de ti,
e no teu peito cabiam histórias pacientes)

Deus viajou, dizem os outros.
E atiram-te palavras como grãos.

O tempo gastou-te os dentes.

Maria da Fonte
Imagem retirada da internet

domingo, 20 de novembro de 2016

Destino



É a morada dos limpos que se acende
na retina, se entrevê nas linhas retas,
nas curvas se dissemina.
É a voz rouca das portas, cheia de correntes
de ar, que amacia as palavras
e que as deixa passar.
É a textura dos dedos que se estende
de repente na projeção de silêncios
que te atingem mortalmente.
É o código postal que te leva cego e mudo
pelas estradas onde a vida
já fica longe de tudo.

Maria da Fonte
Imagem: Salvador Dali - Destino

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Contracorrente


Um dia
vincada de eras
e já caída de bruços,
o meu coração tem asas,
não cabe nos dias justos.

Um dia
contracorrente
e os meus dedos outono,
os meus olhos são distância,
talvez mais sonho que sono.

Um dia
em véspera de nada
e as horas soltas paisagem,
o meu corpo é fronteira,
a minha alma viagem.

Maria da Fonte
Imagem da internet