segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Amigos, hoje apeteceu-me rir de mim.


Num encontro de talentos,
Lá para os lados da Terra,
Sopravam fortes os ventos,
Como quem vive uma guerra.

Aquele diz ser cantor,
Este poeta que encanta.
Um, porque fala de amor;
Outro, porque tem garganta.


O primeiro, furioso,
Pensando ser enganado,
Mandou o outro, por gozo,
Ir cantar para outro lado.


O segundo respondeu
Àquela provocação.
-Aqui o mestre sou eu,
Tu não passas de um pavão.


E nisto, braços no ar,
Gente assustada a correr.
Um que não sabe cantar,
Outro não sabe escrever.

A vergonha não importa,
A gente estava dispersa.
Já os dois fora da porta,
Continuava a conversa.

-Eu sou porque assim o quis.
Dizia sem desmentir.
Uns torciam o nariz,
Outros partiam-se a rir.


-Eu nem preciso de ensaio,
Eu tenho vocação certa.
Uns olhavam de soslaio,
Os outros, de boca aberta.

Sai da betesga um amigo
Com cara de ter também
o ego preso ao umbigo,
talento como ninguém.


Agora, três são de mais,
Não há gente que resista.
Há mais arte que pardais,
Há menos homem que artista.


Já que assim é, também eu
Quis mostrar de uma empreitada
Que a arte também me deu
O dom de não saber nada.

Maria da Fonte
Pintura: João Cristino da Silva

sábado, 18 de janeiro de 2014

Despotismo



Esta morte sem rosto
que me espera, esta vida
já mais que embaciada,
esta falta de sorte (quem me dera!)
de ser mais que o vazio, ser o nada.

Esta esfinge roçada pelo medo,
esta bravura de matar
quem já morreu, este mundo
redondo onde me enrolo,
na certeza sequer de que fui eu.

Esta intriga fechada,
deprimente, esta tela descorada
e encardida, este pintar, este dizer
omnipotente,
esta morte apagando esta vida.

Maria da Fonte
Pintura : Ferdinand Hodler

http://vimeo.com/90397881