terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Esperança


Não te vás, Esperança.
Eu tenho medo
das horas que me pulsam
devagar,
da solidão gelada
dos abismos,
dos fantasmas que me prendem
o olhar.

Se me encolho no silêncio,
não te vás.
É tão longa a noite sem luar!
E entre a sombra do meu corpo
e o meu corpo
cabe a lenda
da bruma das manhãs.

Deixa que a terra cresça
em meu olhar,
ainda que o céu das aves
fique longe,
o declive do solo
me acobarde
e a mão vá chegando
sem chegar.


Maria da Fonte

domingo, 28 de dezembro de 2014

A um amigo especial

Eu queria dar-te um poema
sem fronteiras,
pôr-te palavras nas horas
de insossego.
E na distância, AMIGO,
uma estrela
que te guiasse,
que te tirasse
o medo.

Um poema tão leve
como as aves
que povoam o olhar
da minha mente.
Onde os traços
das linhas, mais suaves,
dessem à folha,
talvez, forma
de gente.

Por entre a neve,
eu erguia, afinal,
um sol quente,
em risco leve e fino.
Nas entrelinhas, de novo,
era Natal.
Em cada linha,
eu punha
um Deus Menino.

Maria da Fonte


domingo, 23 de novembro de 2014

E se alguém não tiver asas




Minha mãe chegou na primavera,
não suportava , por isso,
variações de temperatura.

Havia mulheres que lhe falavam
de El Niño, como se houvesse
entre elas e Deus um compromisso.

Minha mãe chorava, insegura.
Talvez lhe deixassem no lugar das veias
traços indisciplinados
de uma outra aventura.

De asas no ar, voava
atormentada.
E de nada valia a voz mansa
com que meu pai a afagava.

Depois, pousava os olhos no chão
e desenhava ideias secretas
que cheiravam a uma eterna
tempestade.

Auscultava o ventre
dilatado da terra e tinha enjoos.
Ouvia o rebentar das ondas
e segurava as lágrimas.

Ninguém entendia
a dor de minha mãe.
Se as estações do ano eram rotativas,
por que razão suspendia ela o tempo?

Mas… passaram-se nove meses,
e minha mãe, com o seu jeito meigo,
foi derrubando muros
e voando, a medo, pelas quatro estações.

Hoje, eu sei que, no meu bando,
se alguém não tiver asas nunca cai,
voa mais baixo por entre corações.

Maria da Fonte
APPACDM de Setúbal- terceiro prémio

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Jesus



Jesus, que moldura
se esconde em teu olhar?
Que céu cinzelado
tu seguras?

Em que folha te traço?
que rasuras?
E em que parte
me deixo ali ficar?

Não me peças
um lado, arrefeço.
E a linha que tu és
gela-me o chão.

Faz-me crer, Jesus,
na folha em branco,
sem as margens
que percorro com a mão.

E se o céu que tu levas
é inteiro,
o teu rosto não pode
ser metade .

Diz-me, Jesus,
do chão que tu pisaste.
De que traços se fez?
De que vontade?

Não sei, Jesus! Não sei!
Nasce outra vez,
em parte alguma,
talvez em toda a parte.

Diz-me que és linha
inteira que se fez
em folha branca, Jesus.
Quero guardar-te.

Maria da Fonte
Imagem da internet

domingo, 10 de agosto de 2014

«E assim como o mundo se chama mundo, porque é imundo, e a morte se chama Parca, porque a ninguém perdoa, assim a nossa terra se pode chamar Lusitânia, porque a ninguém deixa luzir» Padre António Vieira


2 políticos devassos,
4 palavras de cor,
3 homens e 6 braços.
Regue q.b. com suor.

Um horizonte farpado,
Uma travessa de prata.
O mesmo sistema usado
No timbre do diplomata.

Repita as interjeições
As vezes que entender.
Um grama de eleições,
O resto do tempo a arder.

Junte um pedaço de mim,
Recorte-me a emoção.
Dissolva tudo assim,
Tal outra rebelião.

Bata tudo outra vez,
Agora muita mais gente.
Talvez consiga, talvez,
Um passado no presente.

Depois, do cimo do pódio,
Espreite o calor do fogão.
Quando já ferver o ódio,
O pitéu vira carvão.

Um balde, água bem fria.
Comece tudo de novo.
Invente, tenha ousadia.
Quem faz o povo, é o povo.

Maria da Fonte

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Fragmentos



Daqui, deste mar, eu vejo a vida
até onde o olhar não pode mais.
Acerto o passo ao ritmo das ondas,
de vaga em vaga, vou divisando o cais.
E neste navegar ergo palavras,
levanto o reino de um tempo já perdido,
pressinto por trás das vagas outras vagas,
paro, descanso neste sigo, não sigo.


Maria da Fonte
Imagem da internet

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Formalidades


Pedem-lhe
que trace o futuro,
e num poema
os pés de peregrino.
Crava no alto a corda,
vai subindo,
como quem fende um rasgo
no destino.

Depois olha do alto
o corpo em suspenso,
e com o lápis
desce até ao chão.
Tudo lhe fere os pés,
um medo imenso.
Sobe de novo a corda
da ilusão.



Segue o rasto
de todas as estrelas,
e, em rabiscos
sem se deixar tocar,
vai trocando os vales
pelas serras,
algures perdido num mapa
por traçar.


Foge da tela,
um lápis e o nada,
a corda gasta,
a mão e nunca mais.

E se às papilas
a terra for pesada,
traz no poema
as marcas digitais.

Maria da Fonte
Imagem da internet




segunda-feira, 26 de maio de 2014

Saudade


É a ti que eu vejo
no eco do que penso,
a tua voz terna
fende o espelho fosco.
E como se em mim
se deitasse o dia,
durmo, embriagada,
à sombra do teu rosto.

E quando tu chegas,
as brechas da morte
são covis do tempo
onde enterro o medo.
E é na noite cheia
de imenso deserto,
ainda que pareça ferir
meu sossego,
que eu te vejo o rosto,
que eu te sinto perto.

Mas se for em vão
a minha deriva
e as pernas cederem
ao peso da história,
diz-me que este amor
não cabe na vida,
Que há mapas de sonhos
maiores que a memória.


Maria da Fonte
Imagem da internet

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Parte de mim



Junto aos meus os pedaços dos outros
E conserto o que sou.
Retoco as fendas, fico na sombra de mim.
É madrugada, e as verdades retilíneas da luz
Ferem-me o rosto.

Maria da Fonte


quinta-feira, 27 de março de 2014

Ponte de Lima



O vento sopra em surdina,
Numa serenata errante,
O choro de uma menina
Ao ver partir um Gigante.

De olhar tão triste, cansado,
Surgiu deitada no leito,
Com o vestido molhado,
Com uma chaga no peito.

Um corpo jovem, esguio,
Dois seios, torres fatais,
Deitada ao longo do rio
Entre as pontes, os beirais.

E vendo além a cadeia
Onde encarcerar a dor,
Alimentava essa ideia
De morrer ali de amor.

Mas ao banhar-se no estio,
Foi esquecendo a dor ardente,
Ou porque fosse do rio,
Ou porque fosse da gente.

Hoje é princesa do Lima,
Legado, foro distante.
Alguns lhe chamam menina,
Outros segredam amante.

E por ela, para a ver,
Os vales galgam os montes,
O dia volta a nascer
Nas linhas dos horizontes.

Maria da Fonte

sábado, 1 de março de 2014

Regresso



Levai-me, vento do norte, ao ventre
de minha mãe, falai-lhe da minha sorte,
mas não digais a ninguém.

Se ela, por medo, chorar ou, por culpa,
adoecer, dizei-lhe, para a acalmar,
que eu preferi não nascer.

Só ela me entenderá, só ela
sabe tão bem que a rosa sem a redoma
fica à mercê de quem vem.

No breve correr das horas, onde nunca
sei de mim, dizei-lhe que tenho medo,
que quero o seu ventre, sim.

E antes que gaste o que tenho à procura
do que sou, quero saber ao que venho
no ventre que me gerou.

Pois se hei de voltar um dia ao ventre
de mais alguém, que seja ao ventre da terra
no ventre de minha mãe.


Maria da Fonte
Imagem retirada da internet



segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Sem amanhã

Olhar o céu,
Sonhar-te o infinito.
Pousar no chão,
Ver-te nuvem de pó.
Saber-te as pontas
da carne, do mito,
De um mesmo fio
E de um mesmo nó.



Atravessar quem és,
Saber-te em mim.
Calar em nós
Os gestos da utopia.
Viver de amor,
Morrer de amor assim.
Só por amor,
Um dia após um dia.

Maria da Fonte
Imagem retirada da internet

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Amigos, hoje apeteceu-me rir de mim.


Num encontro de talentos,
Lá para os lados da Terra,
Sopravam fortes os ventos,
Como quem vive uma guerra.

Aquele diz ser cantor,
Este poeta que encanta.
Um, porque fala de amor;
Outro, porque tem garganta.


O primeiro, furioso,
Pensando ser enganado,
Mandou o outro, por gozo,
Ir cantar para outro lado.


O segundo respondeu
Àquela provocação.
-Aqui o mestre sou eu,
Tu não passas de um pavão.


E nisto, braços no ar,
Gente assustada a correr.
Um que não sabe cantar,
Outro não sabe escrever.

A vergonha não importa,
A gente estava dispersa.
Já os dois fora da porta,
Continuava a conversa.

-Eu sou porque assim o quis.
Dizia sem desmentir.
Uns torciam o nariz,
Outros partiam-se a rir.


-Eu nem preciso de ensaio,
Eu tenho vocação certa.
Uns olhavam de soslaio,
Os outros, de boca aberta.

Sai da betesga um amigo
Com cara de ter também
o ego preso ao umbigo,
talento como ninguém.


Agora, três são de mais,
Não há gente que resista.
Há mais arte que pardais,
Há menos homem que artista.


Já que assim é, também eu
Quis mostrar de uma empreitada
Que a arte também me deu
O dom de não saber nada.

Maria da Fonte
Pintura: João Cristino da Silva

sábado, 18 de janeiro de 2014

Despotismo



Esta morte sem rosto
que me espera, esta vida
já mais que embaciada,
esta falta de sorte (quem me dera!)
de ser mais que o vazio, ser o nada.

Esta esfinge roçada pelo medo,
esta bravura de matar
quem já morreu, este mundo
redondo onde me enrolo,
na certeza sequer de que fui eu.

Esta intriga fechada,
deprimente, esta tela descorada
e encardida, este pintar, este dizer
omnipotente,
esta morte apagando esta vida.

Maria da Fonte
Pintura : Ferdinand Hodler

http://vimeo.com/90397881