sexta-feira, 27 de dezembro de 2013


Uma noite sem portas, sem janelas,
Erguida de silêncio e pouco mais;
Entre as fendas das coisas pequenas
E as fragas viscosas do cais.

O gemido sufocante de um rio,
Uma lua desgrenhada no leito,
A leveza de um corpo esguio
Sobre o sopro de um dia desfeito.

E ao cimo das nuvens, estrelas,
Nem sempre tocáveis do chão.
Uns já nasceram sem braços,
Outro não estendem a mão.

Enfim, há noites que matam os dias,
Há dias que vivem nascendo,
Há homens que morrem com vida,
Há outros que vivem morrendo.

Maria da Fonte
Imagem retirada da Internet

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Recados a minha mãe

Recados a Minha Mãe

Deram-te uma folha em branco e um lápis
da cor do céu, uma vida transparente
que o teu olhar coloriu.
Primeiro, uma casa grande, onde
pudesses sonhar. Depois,
um berço dourado e alguém
a quem embalar.
Era para ser um anjo aconchegado
nos braços, mas, do chão até ao céu,
alguém te trocou os passos.
E tu ficaste tão triste. Choraste, eu sei,
é assim. Mas da rudeza das pedras
pode fazer-se cetim.

Pintaste outro caminho, mais longo,
muito mais largo, e lá seguimos os dois
pela vida, lado a lado.

Mãe, só tu me sabes pintar
assim tão perto do céu.
Eu digo que sou um anjo,
tu pedes que seja eu.

Maria da Fonte