quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Excentricidades














No meu olhar incolor
há uma vida
onde linhas paralelas
se projetam.

No silêncio da minha voz
ecoa o fado
de destinos transversais
que em mim se cruzam.


No dizer da minha mão
solta-se o eco
destronando
o limiar do indizível.

Nos meandros de mim
há precipícios
por onde os sentidos
se desprendem.




Maria da Fonte
Imagem da internet

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Fénix



















Arrastas amargamente mundo,
polvilhas de sangue os paralelos do tempo.
O céu fica no topo da vida…
E tu caminhas, tal Sísifo,
pelos trilhos do teu amplo querer.
Deténs o olhar na contemplação da paisagem,
sorves a aragem de momento,
revolves a ramagem dos teus dias,
renovas a firmeza dos teus passos...
Estás pronto para tocar o céu,
mas eis que desequilibras do teu querer,
despenhas-te no abismo, cais no fundo.
Temo que não voltes a nascer,
que as cinzas, espalhadas, não te encontrem
na caótica folhagem do teu mundo.

Maria da Fonte
imagem retirada da internet






sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Petulância














Se nunca
Coubeste nos meus sonhos,
como podes querer pintar-me o céu?
Se nunca
adivinhaste os meus olhos,
como ousas encurtar o leito das minhas lágrimas?
Se nunca
dissecaste as partes do meu todo,
como te atreves a desvendar-me por inteiro?

Maria da Fonte
Imagem da internet

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

AMIGOS, hoje apeteceu-me brincar com um assunto mais delicado. Perdoem-me os menos céticos.

A voz do povo


Maria chegou um dia
A casa muito assustada,
Trazia o medo no bolso
E já vinha derreada.
Ouvira dizer na praça
Que o mundo ia no fim.
Ela, que nem o provou,
Desancou-me logo a mim.
-Maria, não acredites
Nos tempos de «era uma vez…».
-Acredito, é verdade,
Vinha num livro chinês.
Vi-me forçada a chamar
O padre da freguesia.
De bíblia aberta apontou-me
Bem no meio a profecia.
-Jesus! Que posso dizer
Agora à minha Maria?
Vamos tratar de comer…
Amanhã é outro dia.
Mas... espera. Vou chamar
Pessoa mais adestrada,
Não vá mesmo acabar
E amanhã não temos nada.
Olha, acaba de chegar
Doutor de livro na mão.
Só ele pode mostrar
Tão cruel aberração.
Abriu a pasta e tirou,
Com enorme confiança,
Os livros onde ensinou,
Como «A grande mudança».
Lia, ostensivamente,
-Co-mal-cal-co - devagar.
Era a pedra que dizia
Que o mundo ia acabar.
-Também este…Estou perdida!
Que vou dizer à Maria?
Que o mundo fora só meu?
Que nem lhe deixei fasquia?
Quero homem da ciência.
Tudo passos de cosmética…
Logo o sábio soletrou:
-In-ver-são- ge-o-mag-né-ti-ca.
-Não me diga que é verdade?
Que é isso? Que me diz?
Que faço agora ao que tenho?
Não comi tudo por um triz.
Espera…olha a televisão:
«Fim do mundo adiado.
Homens em concertação.».
Jesus! Foi tudo forjado.
Estou perdida, minha gente,
Com tamanha execração.
À custa de tanto sábio
Fiquei de calças na mão.

Maria da Fonte
Imagem da internet






terça-feira, 2 de outubro de 2012

Canção do amanhã














As gaivotas já não voam na marina,
as papoilas já não crescem no meu chão,
os dias já calaram a canção
do coro dos meus tempos de menina.

E há multidão, mas estamos sós.
Não há mar, não há terra, não há mão
que nos traga as gaivotas que se vão
do olhar dos meus pais, dos teus avós.

A voz do meu passado esvaneceu,
o berço é pequeno para mim,
os dias que me trazem vão assim,
ao som de uma canção que já morreu.

O chão onde adormeces não é teu,
o sonho onde te enrolas foi levado,
em ti só há sombra do passado.
O presente que te deram, quem o viu?

Não chores, não tenhas medo, ainda há vento
E chão onde papoilas dão semente.
Se cultivares num campo um mar de gente,
é só regar de esperança o pavimento.

Levanta a tua fé, vem ter comigo,
também nós podemos ser o imenso mar,
subir bem alto ao céu, poder sonhar,
sem medo das alturas, do perigo .


Maria da Fonte
Imagem: lagoadoferro.blogspot.com

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Descolar da miséria



Facilmente se emocionava com o infortúnio alheio, chegava mesmo a verter algumas lágrimas quando alguém lhe trazia uma história mais comovente. Todos os habitantes podiam contar com ele. Nenhuma história macabra caía no esquecimento. A vida jamais se tornaria um monólogo, havia sempre o intercalar de um «Ai Jesus!», num linguajar corriqueiro que lhe trazia mais sentimento à causa.
Regressava a casa e, já no conforto do seu ninho, começava a reconstruir as histórias e a salpicá-las com uma pitada de sal para que não lhes faltasse aquele pavoroso sabor que sempre abre o apetite aos enjoados da vida. A desgraça dos outros não o incomodava minimamente, até lhe trazia algum alento. Foram várias as vezes que o ouvi dizer: «Gosto de estar entre os pobres para me sentir mais rico.».
As tragédias de rua davam lugar às mais ousadas e arrojadas comédias: «Não têm comida em casa! Até parece que eu tenho na minha. Que horror! Aquele cheiro nauseabundo da cozinha enoja-me. Tenho ali umas bolachas integrais e chegam-me, de resto é no restaurante. Dizem que não podem. Francamente! Também não podem ir ao ginásio. Fica ela por ela!». A família contorcia-se com o sentido de humor do patriarca. Aquilo é que era um homem versátil. Só mesmo ele para agradar a gregos e a troianos.
Na rua, chorava compulsivamente. Sabia que do alto da tribuna tinha que manter a prudência. Não podia, sob pena de cair desconcertado no chão, sacudir os que lhe amparavam o pódio. Melhor era, debaixo de um olhar envergonhado, adotar um timbre de voz mais agudo e trémulo, embalar as formigas no seu canto. Só assim, a compaixão de um homem pode ganhar asas e descolar da miséria.

Maria da Fonte