quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Mundo em branco



Ontem saí por aí de saltos altos,
lábios rasgados num sorriso inteiro,
corpo liberto de algemas,
coração a mendigar um abraço franco.



Cruzei multidões espargidas em corpos disponíveis,
ruas seduzidas de vícios,
bares entupidos de beijos,
copos empilhados de delírios,
lábios manietados à excentricidade do sorvo,
olhares parados,
braços ressequidos de afetos,
desejos mascarados,
corpos em ruínas.

Um mundo disponível,
onde eu chegava e tudo me chegava.
Um mundo em branco, ilegível,
onde o meu abraço franco se apagava.

Maria da Fonte
Imagem retirada da internet


sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Entre a ganância e o chão

Quando os sonhos adormecem,
as noites escorrem em vão,
os dias pingam, humilhados,
e homens morrem esmagados
entre a ganância e o chão.

Os ossos dos que rastejam
embalam suavemente
a carne dos que sobejam
à tona de um mar de gente.

E o sangue corre ligeiro
por entre vales de fome
e montanhas de cobiça.
Ninguém estanca a escória,
morremos… é nossa sina
(somos gente submissa).

E a Terra não é redonda
como o prato da minha mesa.
É dividida em estratos:
fome, tortura, avareza.

E os homens não são iguais
como apregoam por aí:
há homens que são mais homens
e homens que nunca vi.

Maria da Fonte
estereotipodaperfeicao.blogspot.com


sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Metamorfose














Apaguei os dias paralelos,
arranquei das páginas a similitude
geométrica dos sonhos,
rasguei a dor oblíqua que ensombrava
as margens da minha história,
degolei o quadro
de formas regulares que me
distorciam a imagem.

Posso pintar tudo de novo,
a memória está limpa
e a vida ainda tem muita tinta.
Serei o deus de mim mesma,
babel em convalescença,
a imagem espiral,
em vertical presença.

Texto: Maria da Fonte
Imagem: muraldosescritores.ning.com