quinta-feira, 26 de julho de 2012

Um resto de vida











Fito o teu corpo
ao dobrar cada esquina,
o teu olhar petrificado pelo terror,
os teus gestos ensaiados
…sem pudor,
o teu travo amargo a cocaína.
Vagueias nas ruas
da cidade,
à sombra da sombra rastejante.
Pássaro ferido,
voo vacilante,
céu caído
num chão de ansiedade.

Foste formiga,
cigarra, horizonte,
tesouro da casa de teus pais,
terra prometida,
mar de corais,
água cristalina da mais pura fonte.
Secaste no rio,
no vale, no monte.
Veias mirradas num tronco caído,
passado distante,
presente partido,
futuro suspenso,
sem asas,sem ponte.

Hoje és paralelo
da betesga esquecida,
Subúrbio de um mundo cruel,
pedante,
tela descorada,
música dissonante,
calçada dos homens,
um resto de vida.

Texto: Maria da Fonte
Imagem: filosofiaetecnologia.blogspot.com


quarta-feira, 11 de julho de 2012

Depois do homem



A mudez da noite pregava-lhe o último golpe. Logo naquele dia em que ele, recostado ao parapeito da janela do quarto, arranjava alguma paciência para, no silêncio sepulcral das trevas, prestar contas a um deus qualquer. Na correria do tempo e na azáfama do percurso, escassos eram os momentos que tinha para meditar mais a sério. Confinava os pés ao ciscar de ganâncias fortuitas. Sempre cabisbaixo, não fossem as ambições, peadas à leveza dos sonhos, fintar-lhe os desejos e arrastá-lo para ensejos triviais, desenxabidos, onde a metamorfose se reduz a rotinas insípidas e sem qualquer espécie de lucro.
Os dias foram, apressadamente, corridos. Não podia perder uma nesga de tempo a contemplar a futilidade das coisas pequenas que ali haviam sido colocadas propositadamente. O mundo era muito mais que uma árvore, uma flor, uma pedra, um lago, um bicho… era o palco de grandes atuações, onde nunca se deixara impressionar pelo cenário.
Agora dispunha de parcos segundos para despir o olhar obstinado que o conduzira até aqui e vestir-se de um mundo mais leve. Não fosse uma dor aguda atravessar-lhe abusivamente o corpo e ele tê-lo-ia feito. Estava disposto a consultar o saldo da vida e a reajustar a diferença. Queria debruçar o olhar sobre o passado e sacudir as lembranças, mas o peso do corpo começava a aquietar-se ao compasso ritmado dos homens que o levavam.
Tantas vezes havia cruzado o caminho e hoje não o reconhecia. Atrás, como uma orquestra afinada, a turba entoava soluços e choros cadenciados pela dor. Uns vociferavam aos céus tamanha injustiça, outros encolhiam-se no silêncio, como se temessem, também eles, ser descobertos por um qualquer criador e forçados a partir sem sequer um adeus.
O caminho, outrora ágil e ameno, tornava-se agora longínquo e sinuoso. Ele temia o seu fim. A ideia de ser deixado na última estação aterrava-o. Como poderia ele, num corpo madraço, enfrentar os contratempos da jornada? O frio do chão gelado e a sombra das noites negras intimidavam-lhe a alma. Não estava, de todo, preparado para seguir viagem, até porque deixara por acertar tantas contas, tantas histórias a meio, tantas pedras por carregar no caminho. Não podia partir, sabia que não podia, mas as mãos do juízo final arrastavam-lhe o corpo retesado, minado pela gula de vermes famintos. Sentia a carne a despregar-se dos ossos, como se uma larva colossal se tivesse apoderado da sua ténue esperança e assolasse impiedosamente o seu corpo exangue, ostentando nas garras o banquete universal. O seu hálito nauseabundo minava-lhe o corpo e intoxicava-lhe a alma. O pranto da multidão, mesclado ao chilrear dos pássaros, ao crepitar das árvores, ao rugir das bestas, ao bramir dos homens, amedrontava-o e sepultava ali a última resignação que em si havia para presidir majestosamente ao seu funeral. A alma exigia descanso e um caminho perene que lhe permitisse curvar a consciência sobre o seu julgamento e acatar solenemente a sentença. Emborcada num corpo inerte, procurava delongar a condenação, prolongando o trilho final. E ele desejava, mais que tudo, um caminhar permanente, um colo quente onde pudesse iludir a frigidez do corpo. Suspeitava que para lá do chão que pisava, dos mares, dos planetas, da matéria, habitava o vazio, o imenso nada onde se atracam os corpos.
Nesta amálgama de terrores, vinha-lhe à memória, numa espécie de viagem ultrassónica, todos os passos que percorrera num tempo que se dizia seu. Questionava, indignadamente, a ausência de pegadas. Afinal todo o passado, que se pensava substância, nada mais era do que uma lufada de sonhos assentes em coisa nenhuma. E a sua memória, talvez menos desperta do que a de Brás Cubas, limitava-se a trazer à superfície pequenos retalhos da vida.
Desta viagem só sobrava ele, o único alicerce de um castelo que euforicamente construíra e que agora se desmoronava como uma nuvem de pó, onde os vermes entusiasticamente proliferavam, edificando vidas paralelas. Restava-lhe, como única certeza, o dever de devolver à terra o corpo que nunca lhe pertencera. Presentear, ainda que amargamente, os vermes com o seu cadáver, por serem tão dignos da vida como ele. Deixar, enfim, a alma seguir…

Texto: Maria da Fonte
Este texto integra a cletânea «Ocultos Buracos»


terça-feira, 3 de julho de 2012

As palavras


As palavras são o meu berço,
onde sossego os meus medos,
a quem sussurro os segredos,
de quem nunca me despeço.

As palavras são o meu cais,
delas parto, a elas retorno.
Mais resistentes que as velas,
mais maleáveis que os ventos,
mais sólidas que o mar revolto,
mais definidas que os homens;
dobram cabos, criam mares,
defrontam adamastores,
velejam para lá de mim,
trazem-me ilhas e amores.



As palavras são os meus olhos,
o tronco que me segura,
o sangue que em mim pulula,
o meu único universo,
donde parto e regresso,
o meu berço… a sepultura…

Texto: Maria da Fonte
Imagem: catarinapoeta.com